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"CORTINAS RASGADAS"
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23/05/2009

AS ORIGENS DA CIVILIZAÇÃO

O Pior Erro na História da Raça Humana
Por Jared Diamond

Texto sobre as origens da civilização

À ciência nós devemos mudanças dramáticas em nossa presunçosa auto-imagem. A astronomia nos ensinou que nossa Terra não é o centro do universo, mas somente um de seus bilhões de corpos celestes. Da biologia nós aprendemos que nós não fomos especialmente criados por Deus, mas frutos da evolução dos seres vivos junto com milhões de outras espécies. Agora a arqueologia está demolindo outra convicção sagrada: que a história humana sobre os milhões de anos do passado teria sido uma longa jornada de progresso. Em particular, achados recentes sugerem que a adoção da agricultura, supostamente nosso passo mais decisivo em direção a uma vida melhor, foi de muitas formas uma catástrofe da qual nós nunca mais nos recuperamos. Com a agricultura veio uma brutal desigualdade social e sexual, a doença e o despotismo, que aflige nossa existência.

Inicialmente, as evidências contra esta interpretação revisionista serão percebidas pelos americanos do século vinte como irrefutáveis. Nós estamos em melhor situação do que as pessoas da Idade Média em quase todos os aspectos, que por sua vez tiveram mais facilidades que os homens das cavernas, que por sua vez ficavam em melhor situação que os macacos. Somente contamos nossas vantagens. Nós apreciamos a grande abundância e variedade de alimentos, as melhores ferramentas e bens materiais, um das fases de maior longevidade e saúde da história. A maioria de nós está protegida da fome e de predadores. Nós obtemos nossa energia do petróleo e máquinas, não de nosso suor. Qual neo-Ludita (movimento social inglês contrário à mecanização, do início do século XIX) entre nós trocaria essa vida pela de um camponês medieval, de um homem da caverna, ou de um macaco?

Na maior parte de nossa história nós sustentamos a nós mesmos pela caça e pela coleta: nós caçamos animais selvagens e apanhávamos plantas silvestres. É uma vida que os filósofos tem tradicionalmente considerado como sórdida, bruta, e limitada. Uma vez que nenhuma comida é cultivada e pouca pode ser armazenada, existe (nesta visão) nenhum momento de repouso para a constante luta que começa novamente todos os dias em busca de alimentos silvestres, para evitar o sofrimento da fome. Nossa fuga desta miséria foi facilitada somente há 10.000 anos atrás, quando em partes diferentes do planeta as pessoas iniciaram a domesticar plantas e animais. A revolução agrícola expandiu-se até hoje e é quase universal e poucas tribos sobrevivem no modelo caçador-coletor.

Da perspectiva progressivista em que eu fui educado, perguntar "Por que quase todos os nossos antepassados caçador-coletores adotaram agricultura?" é tolo. Claro que eles adotaram isto porque a agricultura é um modo eficiente de adquirir mais alimento com menos trabalho. As colheitas de plantações rendem muito mais toneladas por acre que raízes e bagas. Somente imagine um bando de selvagens, exausto de procurar por nozes ou de perseguir animais selvagens, de repente arrecadando alimentos com tranqüilidade, pela primeira vez, em um pomar carregado de frutas, ou de um campo repleto de ovelhas. Quantos milissegundos você pensa que eles levariam para apreciar as vantagens da agricultura?

Os partidários progressivistas algumas vezes chegam a ponto de creditar à agricultura o notável florescer das artes que teria acontecido ao redor dos últimos milhares de anos. Já que as colheitas podem ser armazenadas, e considerando que leva menos tempo pegar comida de um jardim do que encontrá-la na natureza, a agricultura deu a nós tempo livre que os caçadores-coletores jamais tiveram. Deste modo seria a agricultura que nos habilitou a construir o Parthenon ou a compor uma sinfonia.

Apesar disso parecer indiscutível na visão progressivista, é difícil de ser provado. Como você demonstra que as vidas das pessoas de 10.000 anos atrás melhoraram quando eles abandonaram a caça e a coleta pela agricultura? Até recentemente, os arqueólogos tinham que recorrer à provas indiretas, cujos resultados (surpreendentemente) fracassaram em sustentar a visão progressivista. Esse é um exemplo de um teste indireto: Seriam os caçadores-coletores do século XX realmente piores do que os fazendeiros? Espalhados pelo mundo, vários grupos de pessoas consideradas primitivas, como os bosquímanos (bushmen: homens da floresta, primitivos dos bosques) Kalahari, continuam a se sustentarem da mesma maneira. Isso significa que eles têm bastante tempo de lazer, um bom período de sono, ou trabalhem menos do que os seus vizinhos agricultores. Por exemplo, o tempo médio dedicado toda semana para obter comida é somente 12 a 19 horas para um grupo de bosquímanos, 14 horas ou menos para os nômades de Hadza da Tanzânia. Um bosquímano, quando perguntado por que ele não imitava as tribos vizinhas, adotando a agricultura, replicou: "Por que nós deveríamos, quando existem tantas nozes "mongongo" no mundo?"

Enquanto os fazendeiros se concentram em colheitas de alto teor de carboidratos como o arroz e batatas, a mistura de plantas e animais selvagens das dietas dos sobreviventes caçadores-coletores oferecem mais proteína e um melhor equilíbrio de outros nutrientes. Em um estudo, a ingestão média diária de alimento do bosquímano (durante um mês, quando a comida era abundante) era de 2.140 calorias e 93 gramas de proteína, consideravelmente maior que a ração diária recomendada para as pessoas de seu porte. É quase inconcebível que os bosquímanos, que comem 75 ou mais plantas silvestres, possam morrer de fome da mesma maneira que centenas de milhares de fazendeiros irlandeses e suas famílias morreram durante a escassez de batata da década de 1840.

Assim as vidas dos coletores-caçadores sobreviventes não eram tão sórdidas ou brutas, embora os fazendeiros os tivessem empurrado para alguns dos piores locais do mundo. Mas as sociedades coletoras modernas que compartilharam com as sociedades agrícolas por milhares de anos não nos informam sobre as condições prévias à revolução agrícola. A visão progressivista está realmente fazendo uma alegação sobre um distante passado: que as vidas dos povos primitivos melhoraram quando eles trocaram de coletores para a agricultura. Os arqueólogos podem datar essa troca distinguindo sobras e vestígios de plantas e animais selvagens e domesticados em monturos (coleções de lixo alimentar e excrementos) pré-históricos.

Como se pode deduzir sobre a saúde dos fabricantes desse lixo pré-histórico, e assim diretamente testar a visão progressivista? Essa questão ficou possível de ser solucionada apenas em anos recentes, em parte pelas novas técnicas emergentes de paleopatologia, o estudo de sinais de doença nos restos mortais em indivíduos do passado.

Em algumas situações favoráveis, o paleopatologista tem quase tanto material para estudar como um patologista atual. Por exemplo, os arqueólogos nos desertos chilenos encontraram múmias bem preservadas cujas condições médicas na época da morte poderiam ser determinadas por autópsia (Discover, outubro). E as fezes de índios de um passado remoto, que viviam em cavernas, em Nevada, permanecem suficientemente bem preservadas para serem examinadas para pesquisa de vermes intestinais e outros parasitas.

Normalmente o único resíduo humano disponível para estudo são os esqueletos, mas eles permitem um número assombroso de deduções. Para começar, um esqueleto revela o sexo do seu dono, o peso, e idade aproximada. Nos poucos casos onde existem muitos esqueletos, pode se fazer tabelas de mortalidade à semelhança daquelas utilizadas pelas companhias de seguro de vida, para calcular a expectativa de vida e o risco de morte para qualquer idade fornecida. Os paleopatologistas também podem calcular as taxas de crescimento medindo os ossos das pessoas de idades diferentes, examinando os dentes através de defeitos de esmalte (sinais de desnutrição na infância), e reconhecendo as cicatrizes que ficam nos ossos pela anemia, tuberculose, lepra, e outras doenças.

Um exemplo objetivo do que os paleopatologistas descobriram a partir de esqueletos diz respeito à mudanças históricas na altura. Nos esqueletos da Grécia e Peru ficou demonstrado que a altura média de um coletor-caçador ao redor do final da idade do gelo era de generosos 1,79 m (5 ' 9" pés) para homens, e 1,67 m (5 ' 5" pés) para mulheres. Com a adoção de agricultura, a altura despencou, e por volta de 3000 a. C. alcançou uma redução para 1,61 m (5 ' 3" pés) para os homens, 1,52 m (5 ' pés) para mulheres. Nos tempos clássicos ocorreu uma lenta recuperação da altura, mas os gregos e turcos modernos ainda não recuperaram a altura média de seus antepassados distantes.

Outro exemplo de paleopatologia diz respeito ao trabalho de estudo de esqueletos de indígenas de colinas funerárias nos vales de rio de Illinois e Ohio. Nas colinas de Dickson, localizada próxima à confluência dos rios de Colher e Illinois, os arqueólogos escavaram alguns 800 esqueletos que ilustram um quadro das mudanças da saúde que aconteceram quando a cultura de caçador-coletor deu lugar para o cultivo intensivo de milho ao redor de 1150 dC. Os estudos de George Armelagos e seus colegas de então na Universidade de Massachusetts mostra que esses primeiros fazendeiros pagaram um preço para sua forma de sustento. Comparado ao caçador-coletor que precedeu a eles, os fazendeiros tiveram quase 50% de aumento em defeitos no esmalte indicativos de desnutrição, um aumento em quatro vezes na anemia por deficiência de ferro (comprovado por uma condição óssea denominada de hiperostosis porótica), uma triplicação em lesões nos ossos que refletiam alguma doença infecciosa em geral, e um aumento nas condições degenerativas da espinha vertebral, provavelmente refletindo muito trabalho físico desgastante. "A expectativa de vida ao nascimento na comunidade pré-agrícola era em torno de vinte e seis anos," diz Armelagos, "mas na comunidade pós-agrícola seria de dezenove anos. Portanto esses episódios de stress nutricional e por doenças infecciosas, afetou gravemente sua habilidade de sobreviver."

Essas evidências sugerem que os índios das Colinas de Dickson, como muitos outros povos primitivos, se iniciaram na agricultura não por escolha mas por necessidade de alimentar um constante aumento no número de indivíduos de suas populações. "Eu não acredito que a maior parte dos povos coletores-caçadores iniciassem a agricultura até um determinado momento que eles se viram obrigados, necessariamente a iniciá-la, e quando eles trocaram para a agricultura eles negociaram qualidade pela quantidade," diz Mark Cohen da Universidade do Estado de Nova Iorque em Plattsburgh, co-editor com Armelagos, de um dos livros primordiais desse campo de pesquisa: Paleopatologia nas Origens de Agricultura. "Quando eu comecei pioneiramente a tornar público esse argumento dez anos atrás, poucas pessoas concordavam comigo. Agora acabou se transformando num respeitável, embora controverso, lado desse debate."

Existem pelo menos três conjuntos de razões para explicar porque a agricultura era ruim para a saúde. Primeiro, os caçadores-coletores apreciavam uma dieta variada, enquanto os primeiros fazendeiros obtinham a maior parte de sua comida a partir de um ou alguns poucos alimentos da colheita. Os fazendeiros obtinham caloria barata às custas de uma nutrição pobre. (Atualmente apenas três vegetais fornecem altas taxas de carboidratos: trigo, arroz, e milho ? fornecem a maior parcela das calorias consumidas pela espécie humana, e cada qual é deficiente em certas vitaminas ou aminoácidos essenciais para a vida.) Segundo, por causa da dependência de um número limitado de alimentos fornecidos pelas colheitas, os fazendeiros corriam o risco da fome se uma colheita falhasse. Finalmente, o simples fato da agricultura encorajar as pessoas para associação em sociedades lotadas, muitas das quais começaram a estabelecer ligações comerciais com outras populosas sociedades, proporcionou a propagação de parasitoses e doenças infecciosas. (Alguns arqueólogos entendem que foi a aglomeração, e não a agricultura, que promoveu essas doenças, mas isso é uma discussão do tipo "ovo-e-galinha", porque a aglomeração populacional estimulou a agricultura e vice-versa.) As epidemias não poderiam ganhar relevância enquanto as populações fossem difundidas em pequenos espaços geográficos, que constantemente trocavam de acampamentos. A tuberculose e as doenças diarréicas tiveram que aguardar a sedimentação da agricultura, o sarampo e a peste bubônica aguardaram o aparecimento das grandes cidades.

Além de desnutrição, da fome, e das doenças epidêmicas, a agricultura foi fundamental para originar outra maldição da humanidade: as divisões de classes. Os caçadores-coletores tinham pouco ou nenhum armazenamento de comida, como também não tinham fontes concentradas de alimentos, como um pomar ou um rebanho de bovinos: eles viviam do consumo de plantas e animais selvagens que eles procuravam a cada novo dia. Desse modo, não poderia haver nenhum rei, nenhuma classe de parasitas sociais que acumulassem gordura dos alimentos fornecidos pelos demais. Apenas uma população agrícola pode manter uma elite de membros saudáveis, não-produtores vivendo em cima de massas populacionais pobres e enfermas. Os esqueletos das tumbas gregas em Micena, 1500 AC., sugere que essa realeza apreciava uma dieta muito melhor que a dos demais cidadãos, uma vez que os esqueletos reais eram dois ou três polegadas mais altas e tinham dentes melhores (em média, uma ao invés de seis cavidades ou dentes perdidos). No meio das múmias chilenas, 1000 DC., a elite não seria distinguida apenas pelos ornamentos e pelos clipes de ouro de seus cabelos, mas também por uma taxa mais baixa (quatro vezes menor) de lesões ósseas causadas por doenças.

Os contrastes semelhantes em nutrição e saúde persistem em uma escala global hoje. Para os povos de países ricos, como dos Estados Unidos, soa ridículo exaltar as virtudes da caça e da coleta. Mas americanos são uma elite, dependente do óleo e minerais que freqüentemente devem ser importados de países com baixas taxas de saúde e nutrição. Se alguém pudesse escolher entre ser um lavrador da Etiópia ou um bosquímano coletor de Kalahari, qual você imagina ser a escolha melhor?

A agricultura também pode ter promovido a desigualdade entre os sexos. Livres da necessidade de transportar seus bebês durante uma existência nômade, e sob a pressão de produzir mais mãos para o cultivo nos campos, as mulheres camponesas ficavam grávidas com mais frequência que as mulheres caçadoras-coletoras ? com conseqüente prejuízo em sua saúde. Entre as múmias chilenas, por exemplo, mais mulheres que homens apresentavam lesões ósseas por doenças infecciosas. As mulheres nas sociedades agrícolas eram transformadas em bestas de carga. Na Nova Guiné, em suas comunidades agrícolas, eu frequentemente vejo mulheres que cambaleiam debaixo de cargas de legumes e lenha enquanto os homens caminham de mãos vazias. Uma vez, durante um estudo de campo de pássaros, eu ofereci pagamento para alguns aldeãos levar suprimentos de uma pista de vôo até meu acampamento na montanha. A carga mais pesada era uma bolsa de 110 libras (aprox.: 50 kg) de arroz, que eu atribuí a um grupo de quatro homens fazerem tal carregamento. Quando eu alcancei os aldeãos, descobri que os homens estavam levando cargas leves, enquanto uma pequena mulher, pesando menos que a carga de arroz, estava curvada debaixo da mesma, sustentando seu peso com uma corda ao redor de suas têmporas.

Em relação ao argumento de que a agricultura ensejou o florescer da arte nos fornecendo mais tempo para o lazer, os modernos caçadores-coletores têm pelo menos tanto tempo livre quanto os fazendeiros. A ênfase dedicada ao tempo de lazer, como um aspecto crítico, me parece equivocadamente compreendida. Os gorilas tem tido amplo tempo livre para construírem seu próprio Parthenon, quando quisessem. Enquanto os avanços tecnológicos pós-agrícolas permitiram o surgimento de novas formas de arte com mais facilidades para sua preservação, grandes pinturas e esculturas já estavam sendo produzidas pelos caçadores-coletores há 15.000 anos atrás, e continuam ainda sendo produzidas tão recentemente quanto nesse último século por tais povos, como os esquimós e os índios do Noroeste do Pacífico.

Deste modo, com o advento de agricultura a elite ficou em melhor situação, mas a maioria das pessoas ficou nas piores situações de existência. Em vez de se associar à linha partidária progressivista, de que nós escolhemos a agricultura porque ela é melhor para nós, deveríamos nos perguntar como fomos aprisionados por ela, apesar de suas armadilhas.

Uma resposta se resume ao provérbio "Poderia ser melhor." A agricultura poderia sustentar muito mais pessoas do que a caça, embora com uma qualidade mais pobre de vida. (As densidades populacionais de caçadores-coletores são raramente mais de uma pessoa por dez milhas quadradas, enquanto que entre os agricultores as densidades chegam a 100 vezes essa taxa.) Em parte, isto é devido ao fato de um campo estar completamente plantado com produtos comestíveis, permitindo alimentar muito mais bocas do que uma floresta com plantas comestíveis dispersas. Em parte, também, porque os nômades têm que manter suas proles espaçadas em intervalos de quatro anos, uma vez que uma mãe deve manter seus filhos até que seja velho o suficiente para acompanhar os adultos. Como mulheres agricultoras não têm tal fardo, elas podem, e freqüentemente cuidam de uma nova criança a cada dois anos. Como as densidades das populações dos povos caçadores-coletores lentamente subiram no final das eras de gelo, os grupos tinham que escolher entre alimentar mais bocas assumindo os primeiros passos em direção à agricultura, ou então encontrando caminhos para limitar o crescimento. Alguns desses grupos escolheram essa nova solução, pois foram incapazes de prever os perigos da agricultura, sendo seduzidos pela abundância passageira que eles aproveitaram até que o crescimento da população ultrapassou a produção de alimentos. Tais grupos se miscigenaram, se espalharam por outros territórios, ou até mesmo mataram os grupos que escolheram permanecer como caçadores-coletores, porque cem agricultores mal nutridos podem ainda vencer um caçador saudável. Não foram os caçadores-coletores que abandonaram seu estilo de vida, mas aqueles que seriam sensatos o suficiente para não abandonar esse estilo de vida, seriam obrigados a abandonarem qualquer extensão de terra, exceto aquelas que os fazendeiros não desejassem.

Até então é instrutivo ressaltar uma acusação que é comumente dirigida à arqueologia, adjetivando-a de luxuriosa, por estar preocupada com o passado distante, sem oferecer lições para o presente. Os arqueólogos, estudando a consolidação da agricultura, reconstruíram uma fase crucial da história humana, etapa que nós cometemos o pior engano dessa história. Forçados a escolher entre limitar a população ou aumentar a produção de alimentos, nós escolhemos a segunda opção e fomos levados à mais fome, à guerra, e à tirania.

O caçador-coletor praticou o mais bem sucedido e mais prolongado estilo de vida da história da raça humana. Em contraste, nós estamos ainda lutando com a bagunça que a agricultura nos ofereceu, e é ainda obscuro se nós poderemos resolver tais conseqüências. Suponha que um arqueólogo que visitou o espaço sideral estivesse tentando explicar a história humana para outros colegas do espaço. Ele poderia ilustrar os resultados de suas escavações através de um relógio de 24 horas, onde cada hora representa 100.000 anos de intervalo de tempo. Se a história da raça humana começou à meia-noite, então nós seríamos agora quase o final do nosso primeiro dia. Nós vivemos como caçador-coletor por quase todo esse dia, da meia-noite ao amanhecer, do meio-dia ao pôr-do-sol. Finalmente, às 23h:54m nós adotamos a agricultura. À medida que nossa segunda meia-noite se aproxima, o mal estado de milhões de camponeses famintos e doentes alcançará a todos os demais? Ou nós, de alguma maneira alcançaremos as benções sedutoras que nós imaginamos advir da luminosa fachada da agricultura, e que até agora tem nos iludido?

Título original em inglês: ?The worst mistake in the history of human race?
(by Jared Diamond, University of California at Los Angeles (UCLA) Medical School)
Publicado na revista: Discovery magazine, em Maio de 1987, páginas 64-66.

Traduzido por José Carlos B Peixoto

Comentários a este artigo:

REALMENTE!
Carlos Fagundes 11/05/2007 12:23

O homem nasceu para a caça-coleta. Não dependiamos de eletricidade, transportes, celular, computador; eramos saudáveis, atléticos e em comunhão com nossos instintos e com a Natureza. Na lenda em Caim o caçador, matou Abel o agricultor. Por esse prisma Caim estaria certo?

Agricultura e Escravidão
Abel 11/05/2007 14:36

De fato, a agricultura é a primeira manifestação do trabalho servil na humanidade. Segundo a tradição bíblica, o primeiro criminoso, Caim, é um agricultor.

Paul Lafargue, Direito á Preguiça

Revolução Agrícola
Marlene 11/05/2007 14:44


Uma pérola do Mundim:

"O malvado que cercou sua horta e que, segundo Rousseau, foi o fundador da sociedade civil, foi, isso sim, o iniciador da Revolução Agrícola que ocorreu por volta de 6 mil A.C. Ele cercou o campo para que não fosse invadido por ladrões ou animais selvagens; não houvesse feito isto, ainda estaríamos catando bolotas e ratos para comer. A propriedade privada, bem como a divisão de trabalho que impõe, é inseparável da Revolução Agrícola que gerou o mundo de hoje, em que até as mentes mais limitadas têm computador para escrever suas tolices."

Pedro Mundim, Sempre é bom discutir

http://prod.midiaindependente.org/es/green/2006/12/368072.shtml?comment=on

As Glaciações e o Condicionamento Humano
Linker 11/05/2007 15:01


"Analisando várias teorias sobre a origem da civilização, me deparei com uma idéia muito interessante, porém pouco desenvolvida. Uma das perguntas que nós nunca conseguimos responder adequadamente é: se os homens viviam bem, por que criar um modo de vida tão oposto ao original? Culpar alguma característica humana, como o egoísmo, não é suficiente. Levaria a pensar que a civilização é, pelo menos em algum ponto, necessária e inevitável. Mas talvez já possamos indicar um caminho para explicar porque alguns homens escolheram este modo de vida sem recorrer a esses argumentos salvacionistas."

Janos Biro, Condicionamento Humano

http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2006/04/350214.shtml

outro lado: a culpa não seria dos nômades?
Celio Ishikawa 12/05/2007 08:56


Interessante disucsão, mas só para provocar, coloco um possível outro lado: a culpa não seria dos nômades, aqueles que não fixaram um terreno para viver?

Os nômades (como os ciganos) provavelmente vieram de povos que extraíam coisas da floresta e ao encontrarem outros povos, realizavam trocas. Provavelmente foram os nômades que inventaram a moeda, e ao se depararem com povos das eras de ferro, bronze ou ouro, ajudaram a difundir as moedas de metal com que passaram a ser feitas o comércio.

O que será que foi mais daninho à humanidade (no sentido do texto de termos evoluído para esse estado que gera miséria)? O come´rcio de trocas, ou a introdução das moedas de ouro, que permitiam carregar fortunas em espaço pequeno?

E o texto diz que a agricultura produziu o tempo livre para os homens fomentarem a cultura moderna, mas por outro lado, a filosofia nasceu do comércio: Filosofia, e não uma nova religião, surgiu na Grécia justamente por causa do contato com diversos mercadores, assim, achava-se interessante uma idéia de um oriental, mas sem terem de aderir ao budismo, idéias eram trocadas de forma a formar sistema sem o rigor religioso e assim nasceu a Filosofia na Grécia.

Como se vê, podemos culpar outros elementos além dos povos que se fixaram e deram origem à agricultura.

SE HOJE...
Marcos Massarioli 12/05/2007 09:54

A civilização da caça e coleta era plenamente sustentável e integrada ao meio ambiente, sem danificá-lo de forma irreversível, podendo perpetuar-se indefinidamente.
A população humana existia em numero proporcional à oferta de alimento da Natureza. Nunca ocorria a superpopulação, e a consequente exaustão dos recursos naturais e poluição de hoje.

Hoje se faltar a energia elétrica, nossa civilização entra em colapso total, e o pior, não há mais meio ambiente que ofereça alimento e recursos para um sistema sustentável de caça e coleta. Não há mais o caminho de volta. Bilhões estariam condenados à morte pela fome e a barbárie, pois dependemos da artificial produção industrial de alimentos, de supermercados, de informática, de biotecnologias, quimica farmacêutica e fina...

Enquanto isso, algumas tribos ainda esquecidas em recantos longinquos do planêta, podem permanecer por milhares de anos ainda, prescindindo de tudo isso, se for mantido o seu meio ambiente natural. Ninguém sente falta daquilo que não conhece ou experimentou.

Realmente, pegamos o caminho errado...

Notável
BR 12/05/2007 19:00


Realmente notável essa abordagem! Mas acho que a pior desgraça da humanidade não foi o surgimento da agricultura, e sim o aparecimento dos sociólogos, antropólogos, pedagogos, historiadores, psicólogos e afins, de orientação marxista. Essa paranóia da "luta de classes" e "origens da desigualdade social" é emblemática, isso já cansou. E agora mais essa! talvez fosse melhor que estivéssemos vivendo em cavernas, dependentes da natureza, morrendo aos 25 anos de diarréia, ou de uma infecçãozinha de garganta, lutando com pedras pela posse do fogo, ou de pouco de carne. Que coisa mais idílica! Fico extasiado só de pensar nessa vida saudável que deixamos para trás.

Agricultura e tempo livre para o homem fomentar a cultura?
Qual homem? 14/05/2007 08:51

'A agricultura produziu o tempo livre para os homens fomentarem a cultura moderna'?

Qual homem tinham tempo livre para fomentar a cultura? Todo e qualquer homem, ou apenas o homem da classe parasitária?

"Since the advent of private property society has been arranged according to a class-basis, or rather, there have been a minority of individuals who have controlled how society is organized, and benefited from it. In the first post hunter-gatherer societies, slavery was the ?mode of production? ? the way in which society reproduced, or arranged itself. This means that slaves did everything that needed to be done in order for everyone to live; they did the agricultural and building work, as well as the variety of other tasks that enabled the elite to dedicate their lives to either the pursuit of culture or simply extravagance.
.....

When mass-agriculture was first established, the grounds for civilization became possible. This is because for the first time there was a surplus of food, enabling humans to permanently settle in certain regions and expand in population. It also meant an increase in humanities ?productive forces?, meaning, that less work was able to produce the same amount of things, enabling labor to be focused in a variety of new directions and capacities. The unfortunate result was not that everyone had to work less, but that a certain class of people did not work at all."

Marx for Dummies, by James Cooke

http://www.indymedia.ie/article/75536

Eu também quero a volta à Natureza
Rousseau 15/05/2007 09:10

'Eu também quero a volta à natureza. Mas essa volta não significa ir para trás, e sim para a frente.'

Nietzsche


Garimpo
Moisés Baiochi 28/05/2007 03:44

Vc espera que um prato de comida caia do céu ou vc joga uma semente no chão?
A Agricultura é o passo mais acertado da humanidade, o que falta aos agricultores é amor pela pátria, e dedicar seus recursos para dar mais vida a terra. Mas o maldito dinheiro não deixa, seus filhos e mulheres querem viajar, andar de caminhonetes novas, esbanjar!!!
Terra, não existe apenas para suprir as necessidades dos homens, ela é a residência sagrada dos espiritos de seus ancestrais, por isso ela deve ser cuidada, protegida e alimentada por um patriotismo intenso.
Eng. Agr. Moisés Baiochi

De volta para o futuro
Janos Biro 11/07/2007 22:35

Realmente não precisamos retornar para um lugar de onde nunca saímos, a natureza.

S. BR

Por que capitalistas acham que todo mundo que discorda deles é marxista? Não tem nada a ver com marxismo, marxismo também entra na crítica. Enquanto posso concordar que a solução não está na luta de classes, a questão da origem da desigualdade me parece importante, a não ser que você ache que somos naturalmente voltados à desigualdade, no entanto isso bastante questionável. A vida que "deixamos para trás" não é como você imagina, você tem uma visão tão errada quanto a visão romântica, uma visão pejorativa.

Caro Celio Ishikawa

Os nômades a que você se refere eram povos que tinham domesticados animais, eram pastores (como Abel) e não coletores. Pastores e agricultores são povos igualmente civilizados. Talvez o erro do texto seja culpar apenas a agricultura, na verdade deveria ser a agropecuária.

A antiga filosofia grega, na minha opinião, é nada mais que as bases para as religiões que temos hoje. Platão e Aristóteles, por exemplo, estabelecem a base de tudo que o cristianismo, islamismo e até espiritismo pregam hoje. Claro que não são os únicos, mas tem uma influência determinante. A filosofia não se restringe nem depende da filosofia grega antiga.

Caro Eng. Agr. Moisés Baiochi

A questão aqui não é simplesmente plantar, mas sim ter um modelo expansivo, que hoje é chamado de modelo industrial de agropecuária. Os homens não passam fome antes da agricultura, ou não teriam tido 100 mil anos de estabilidade populacional, com um pequeno crescimento. Nem precisavam de pátrias ou de amor à pátria. Considero que essa idéia de patriotismo não tem nada ver, é uma idéia ingênua. Você coloca a culpa nos homens que "não amam seu país" ou nos jovens que querem caminhonetes novas, oras, mas ninguém é obrigado a amar coisa alguma, e caminhonetes são produzidas para gerar tal desejo. A culpa não está nas pessoas e sim no modelo econômico.

A terra não precisa ser protegida e alimentada, ela estava aqui muito antes do homem e nunca precisou ser protegida ou alimentada, outros animais que comem tanto quanto nós nunca precisaram plantar, então qual o seu ponto? Essa história de patriotismo é uma retórica para defender o Estado.

O econômico não importa
Moisés Baiochi 01/09/2007 17:50


Janos Bira

>>>>>A questão aqui não é simplesmente plantar, mas sim ter um modelo expansivo, que hoje é chamado de modelo industrial de agropecuária.
Qual modelo é esse? seja mais claro, me esplique como essa industria vai comprar matéria prima?

Digo "patria" como sendo o que nos sustenta, ou vc acha que comida nasce na prateleira do supermercado. Tudo e qualquer modelo economico, ou sistema de produção agricola que não for voltado a eternizar os recursos agroambientais, e considerar a terra como um organismo vivo será inviável,

>>>>A culpa não está nas pessoas e sim no modelo econômico.
Você não acredita que antes do homem cunhar uma moeda, ele não cultivava em jardim algum!!

>>>>A terra não precisa ser protegida e alimentada, ela estava aqui muito antes do homem e nunca precisou ser protegida ou alimentada, outros animais que comem tanto quanto nós nunca precisaram plantar, então qual o seu ponto?
Primeiro, equilibrio, e talvez vc acredite em Darwin, e conclua que o homem tenha evoluido do macaco e é deste planeta!! é só meu ponto!! O homem atual acaba desequilibrado o ambiente e isso tem que ser levado em conta para cuidar desses desvios de ciclos ou desequilibrio ecológico.

>>>>>Essa história de patriotismo é uma retórica para defender o Estado.
Qual estado? Físico?! se for o estado fisico eu concordo com você. eu cuido da Terra em todos os meus projetos como Engenheiro Agrônomo, pois preciso de seus recursos para sobreviver e os modelos economicos atuais ou qualquer outro não contam nessa hora. O que importa e o Socio-Ambiental.

Aguardo tréplica

O econômico importa sim
Janos Biro 05/09/2007 11:46

Moisés Baiochi

1. Estava apenas citando o fato de que muitas tribos tem técnicas de cultivo sustentáveis, e que elas só podem ser sustentáveis porque não são modelos expansivos ou massivos, tal como no nosso modelo industrial, porque ele é reflexo de uma economia que depende de crescimento e produção em massa. A sustentabilidade do modelo de caça e coleta só existe quando o modelo econômico da tribo é sustentável. Se não é, como em alguns casos aconteceu, mesmo sem plantar nada as tribo entraram em colapso por excesso de acúmulo e dano ambiental.

2. Certamente ele cultivava jardins antes da moeda, mas a moeda não é o início da economia. Tomo por economia algo bem mais amplo, que começa nas relações de troca. Além disso não me parece prejudicial ter um pequeno jardim, mas sim tomar controle do que cresce e do que não cresce em áreas do tamanho de florestas...

3. Eu não "acredito" em Darwin, eu estudo evolução assim como você estuda engenharia agrícola. O homem faz parte do planeta, sim, e exatamente por isso não é o "homem" que está em desequilíbrio com ele. Se fosse simplesmente o "homem", enquanto espécie, não haveria nada que você ou qualquer outra pessoa poderia fazer, a não ser negar nossa natureza. Eu concordaria com você que NOSSA CULTURA é insustentável, é ela que deve mudar, e só nós, seres humanos, podemos mudá-la. Logo o ser humano não é o problema, é a solução. Nós temos que conhecer a origem do desequilíbrio para corrigi-lo, o que eu discordei com você foi em como faremos isso. Do meu ponto de vista você está observando a questão de modo mecanicista, está observando apenas um aspecto, o da agricultura. Mas a questão não é exatamente o que fazemos ou o que devemos deixar de fazer, mas os pressupostos fundamentais para isso, porque se eles não mudarem, nós vamos apenas encontrar outra área para cometer o mesmo erro.

A Terra não está em nossas mãos, não é nosso jardim, o homem vivia bem com a terra sem precisar controlá-la, e talvez seja exatamente isso que precisemos: desistir do controle, desistir de ser deuses na terra, ao invés de simplesmente direcionar o controle para aquilo que chamamos de "bem". Porque quando começamos com tudo isso ninguém duvidava que era uma coisa maravilhosa, é só uma questão de tempo até termos novos erros inesperados em qualquer modelo que apliquemos. Porque a terra não é algo que possa estar sujeita à engenharia do homem, ela precisa ser livre. Não estou com isso defendendo que podemos fazer o que quisermos com a terra, do meu ponto de vista o controle é o problema, não importa que seja controle destrutivo ou preservador. O homem antes do controle não era destrutivo, mas apenas depois dele.

Se você se importa apenas em preservar, você está auxiliando diretamente o sistema que constrói e mantém toda desigualdade, as guerras, a fome e todos nossos problemas sócio-ambientais. O que por um lado é bom para você, porque garante que seu emprego vai ser cada vez mais valorizado. Quando eu digo Estado digo essa grande instituição cuja função é controlar as atividades humanas, garantir o funcionamento da sociedade "de acordo com o plano", etc... Indiretamente, você beneficia o status quo, não há como ficar neutro.

Fonte total:
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/

03/04/2009

MITOLOGIA GREGA

Mitologia grega

Raças Ventos · Centauros · Ctónicos · Ciclopes · Dragões · Erínias · Gigantes · Górgonas · Hecatônquiros · Harpia · Musas · Moiras · Mortais · Ninfas · Deuses olímpicos · Deuses primordiais · Sátiros · Titãs

Deuses olímpicos Zeus · Hera · Posídon · Hades · Atena · Apolo · Ártemis · Deméter · Afrodite · Ares · Hefesto · Hermes · Dionísio · Héracles

Deuses primordiais Caos · Éter · Érebo · Euríbia · Gaia · Hemera · Nix · Óreas · Tártaro · Urano · Eurínome · Eros

Titãs Céos · Cronos · Hipérion · Jápeto · Créos · Oceano · Febe · Mnemosine · Reia · Téia · Têmis · Tétis

Outros deuses Asclépio · Circe · Éolo · Éris · Hécate · Hebe · Hélios · Hipnos · Métis · Morfeu · Orfeu · Nêmesis · Pã · Perséfone · Selene · Tânatos

Heróis Agamemnon · Aquiles · Argonautas · Belerofonte · Édipo · Enéias · Heitor · Jasão · Menelau · Odisseu · Orestes · Páris · Perseu · Teseu

Busto de Zeus, em Otricoli (Sala Rotonda, Museu Pio-Clementino, Vaticano).


Mitologia grega é o estudo dos conjuntos de narrativas relacionadas aos mitos dos gregos antigos, de seus significados e da relação entre eles e os países ou povos — consideradas, com o advindo do Cristianismo, como meras ficções alegóricas. Para muitos estudiosos modernos, entender os mitos gregos é o mesmo que lançar luz sobre a compreensão da sociedade grega antiga e seu comportamento, bem como suas práticas ritualísticas. O mito grego explica as origens do mundo e os pormenores das vidas e aventuras de uma ampla variedade de deuses, deusas, heróis, heroínas e outras criaturas mitológicas.

Ao longo dos tempos, esses mitos foram expressos através de uma extensa coleção de narrativas que constituem a literatura grega e também na representação de outras artes, como a pintura da Grécia Antiga e a pintura vermelha em cerâmica grega. Inicialmente divulgados em tradição oral-poética, hoje esses mitos são tratados apenas como parte da literatura grega. Essa literatura abrange as mais conhecidas fontes literárias da Grécia Antiga: os poemas épicos Ilíada e Odisséia (ambos atribuídos a Homero e que focam sobre os acontecimentos em torno da Guerra de Tróia, destacando a influência de deuses e de outros seres), e também a Teogonia e Os Trabalhos e os Dias, ambos produzidos por Hesíodo. Os mitos também estão preservados nos Hinos homéricos, em fragmentos de poemas do Ciclo Épico, na poesia lírica, no âmbito dos trabalhos das tragédias do século V a.C., nos escritos de poetas e eruditos do Período Helenístico e em outros documentos de poetas do Império Romano, como Plutarco e Pausanias. A principal fonte para a pesquisa de detalhes sobre a mitologia grega são as evidências arqueológicas que descobrem e descobriram decorações e outros artefatos, como desenhos geométricos em cerâmica, datados do século VIII a.C., que retratam cenas do ciclo troiano e das aventuras de Hércules. Sucedendo os períodos Arcaico, Clássico e Helenístico, Homero e várias outras personalidades aparecem para completar as provas dessas existências literárias.

A mitologia grega tem atribuído uma significante influência na cultura, nas artes e na literatura da civilização ocidental e ainda continua a fazer parte da herança e da linguagem do Ocidente. Poetas e artistas — como também intelectuais, estudiosos e outros envolvidos com humanas — das épocas mais remotas até as mais presentes têm se adquirido das inspirações que a mitologia da Grécia antiga possuíam como método de descoberta das inúmeras relevâncias e significados que os temas mitológicos clássicos possuem com o seu contemporâneo.

Dioniso e sátiros. Interior de um vaso com figuras vermelhas, 480 a.C.


Afrodite e Adônis. Cerâmica grega antiga, 410 a.C.


Termo e compreensão
Num contexto acadêmico, a palavra "mito" significa basicamente qualquer narrativa sacra e tradicional, seja verdadeira ou falsa. O sufixo "-logia", derivado do radical grego "logo", representa um campo de estudo sobre um assunto em particular. Com a junção de ambos os termos, "mitologia grega" seria, basicamente, o estudo dos mitos gregos, ou seja, os que fazem parte da cultura da Grécia.

Embora seja essa a convenção, os mitos gregos possuem uma abrangência muito grande e complexa em seu significado. Costumam ser compreendidas como narrativas falsas ou fantasiosas, mas também arquétipos presentes no inconsciente coletivo, como prefere Jung, embora também sejam vistos como histórias que servem como guia de comportamento, para Malinowski, ou, finalmente, narrativas sagradas, onde existe o culto dos seres; todavia existe também a interpretação, segundo Lévi-Strauss, de ser narrativas voltadas à linguagem, à expressão, ou mesmo à conceitos e categorias.

Para mais informações, dirija-se até as sub-seções: Concepções greco-romanas e Interpretações modernas. É importante ressaltar que, nesse artigo, as palavras "mitologia" e "mito" são usadas para as narrativas tradicionais e sagradas das culturas clássicas, sem qualquer implicação de que esta ou aquela seja verdadeira ou falsa.

As dafnefórias (1876), oléo sobre tela de Frederic Leighton: a dafnefória era um festival dedicado a Apolo celebrado pelos gregos a cada nove anos, em Tebas, Beócia.


Introdução

Mito e sociedade

A mitologia grega era assunto principal nas aprendizagens das crianças da Grécia Antiga, como meio de orientá-las no entendimento de fenômenos naturais e em outros acontecimentos que ocorriam sem o intermédio dos humanos. Os gregos antigos não contavam com meios modernos de calcular o tempo, de modo que seus poetas usavam a imaginação para atribuir a causa dos fenômenos a seu redor, e foi justamente quando inventaram o calendário e começaram a entender estados térmicos e o sol e a chuva que os mitos declinaram. Os poetas atribuíam esses estados térmicos, como também as relações e as características humanas, aos deuses e a outras histórias lendárias, e elas serviram durante um bom tempo como cultos ritualísticos na sociedade da Grécia antiga. Além das crianças serem educadas através dos mitos, as famílias aristocráticas da Grécia, assim como os reis, e outras categorias profissionais, como os médicos, possuíam a tradição de se ligarem genealogicamente a antepassados míticos, geralmente divinos, ou até mesmo heróicos. Os comerciantes, também, cultuavam deuses, como Hermes, numa tentativa de deixá-lo satisfeito, e assim conseguir bons resultados em suas vendas.[19] Além de serem habituados aos sacrifícios de animais e às orações, os gregos antigos adotavam um deus particular ou um grupo deles para sua cidade, e os cidadãos construíam templos e o(s) venerava(m). Essas cidades não possuíam qualquer organização religiosa oficial, mas honravam os deuses em lugares determinados, como Apolo exclusivamente em Delfos.

Para o povo grego, a sabedoria plena e completa pertencia aos deuses, mas os homens poderiam desejá-la e amá-la, tornando-se filósofos (philo= amizade, amor fraterno, respeito; sophia= sabedoria).

Concepção de um templo grego, onde se reverenciava os deuses: muitas dessas obras arquitetônicas da Grécia ainda estão preservadas no território do país.


Mito e religião
Embora muitas vezes confundida com a religião, a mitologia grega é um conjunto de crenças enraizadas em relatos fictícios e imaginários, enquanto que essa outra envolve rituais dentro de procedimentos com a finalidade de estabelecer vínculos com a espiritualidade. Enquanto que, na mitologia os gregos acreditavam que todas as coisas aparentemente inexplicáveis eram fruto das ações divinas de seres que ninguém era capaz de ver, ou então obra de heróis do passado, a religião, para o homem da Grécia antiga, consistia em cultos aos deuses do Olimpo, realizados em templos comuns ou em altares e, também, culto aos heróis, realizados em suas respectivas tumbas. Dedicados a um deus ou a um herói, os templos, decorados com esculturas (de deuses ou heróis) em relevo entre o teto e o topo das colunas, eram constituídos de pedras nobres como o mármore, usadas no alto da acrópole. Os antigos teatros gregos, também, eram construídos para determinada figura mitológica, deuses ou heróis, como o teatro de Dioniso no Santuário de Apolo em Delfos.

Além da religião ter sido praticada através de festivais, nela se acreditava que os deuses interferiam diretamente nos assuntos humanos e que era necessário acalmá-los por meio de sacrifícios. Os gregos, frequentemente, encontravam desígnios dos deuses em muitas características da natureza. Os advinhos, por exemplo, acreditavam haver mensagens divinas contidas no vôo das aves e nos sonhos. Nas cidades, os oráculos — locais sagrados — eram usados por um sacerdote que, tomado por êxtase ou loucura divina, servia de intermédio entre o diálogo de um fiel e seu deus de adoração. Portanto, é possível concluir que a mitologia dos gregos antigos é o conjunto das histórias fabulosas dos heróis e dos deuses (constituindo toda uma literatura da Grécia), enquanto que a sua religião é, basicamente, os culto e rituais que a constituem, sob a finalidade de estabelecer vínculos com as divindades da mitologia.

Classificação
A gama de personagens, seres e ambientes que formam a Mitologia grega podem ser separados em três partes, sendo a última um apêndice para a literatura mitológica, de onde conseguimos grande parte das informações sobre os mitos:

1. Raças, divindades, criaturas; personagens em geral, que abrange os Ventos, Centauros, Ctónicos, Ciclopes, Dragões, Erínias, Gigantes, Górgonas, Hecatônquiros, Harpia, Musas, Moiras, Mortais, Ninfas, Deuses olímpicos, Deuses primordiais, Sátiros e Titãs.
1 a. Aqui também são incluídos os heróis Héracles, Aquiles, Odisseu, Jasão, Argonautas, Perseu, Édipo, Teseu e Triptolemos.
2. Lugares, que abrange os ambientes em que essas figuras, na imaginação dos gregos, viveram suas aventuras, que são Delfos, Delos, Olímpia, Hades (reino), Atlântida, Olimpo, Tróia, e Temiscira.
3. Literatura mitológica clássica, inclui o estudo da literatura antiga grega, que contou com nomes como Homero, que incluía em sua narrativa a crença de deuses.

Fontes
A origem dos mitos da Grécia não deriva puramente da civilização grega, mas de uma mistura entre a cultura dos indo-europeus, pré-gregos, e até mesmo dos asiáticos, egípcios e outros povos com as quais os gregos estabeleceram contato. A mitologia grega é conhecida nos dias de hoje através da literatura grega e de expressões artísticas visuais que datam do Período Geométrico[nota 1] em diante. Entender como nós, contemporâneos, tivemos a oportunidade de arrecadar informações tão antigas quanto são os mitos gregos é o objetivo deste capítulo.

Fontes literárias
A narração mítica desempenhou um papel importante em quase todos os gêneros da literatura grega. No entanto, o único manual mitográfico que sobreviveu da Grécia Antiga foi a famosa Biblioteca Mitológica, do escritor denominado Pseudo-Apolodoro, que tenta conciliar os contos contraditórios dos poetas e fornece um resumo da mitologia grega e suas lendas históricas.

O poeta romano Virgílio conservou em suas obras grande parte das características da mitologia grega.
Entre as fontes literárias da primeira era, destacam-se os dois poemas épicos de Homero–Ilíada e Odisséia. Completando esse ciclo épico, temos escritas de poetas cujos documentos foram perdidos ao longo do tempo. Apesar da sua denominação tradicional, os Hinos homéricos, hinos em coral da primeira fase da então-denominada poesia lírica, não possuem relação alguma com Homero. Hesíodo, possível contemporâneo de Homero, produziu Teogonia, o documento mais recente sobre mitos gregos, que elabora uma genealogia dos deuses e explica a origem dos Titãs e dos Gigantes. Os Trabalhos e os Dias, também de Hesíodo, é um poema didático sobre a vida da agricultura que apresenta os mitos de Pandora e da Era dos Homens. O poeta dá conselhos sobre a melhor maneira de ter sucesso em um mundo perigoso tornado ainda mais arriscado por esses deuses. Os Trabalhos e os Dias também apresenta o mito de Prometeu, que, mais tarde, constituiu na base de uma trilogia de tragédias, possivelmente iniciada por Ésquilo, que são: Prometeu Acorrentado, Prometeu Desacorrentado e Prometeu, o Condutor do Fogo.[nota 2]

Os poetas líricos direcionaram por vezes seus temas aos mitos, todavia esse tratamento ficou cada vez menor, enquanto que sua alusões à narrativa cresceu. Os poetas líricos gregos, como Píndaro e Simónides de Ceos, e os poetas bucólicos, incluindo Teócrito, forneceram incidentes mitológicos individuais. Além disso, o mito foi tema central no drama Ateniense: os dramaturgos trágicos Eurípides, Sófocles e Ésquilo produziram seus enredos envolvendo a Era dos Heróis e a Guerra de Tróia. Muitas das grandes históricas trágicas (ou seja, Agamemnon e seus filhos, Édipo, Jasão e Medéia, etc.) trouxeram em sua forma clássica estas peças trágicas.

Os historiadores Heródoto e Diodoro Sículo, e os geógrafos Pausânias e Estrabão, que viajaram ao redor do mundo grego e anotaram as histórias que ouviram, forneceram numerosos mitos locais, apresentando diversas vezes versões alternativas pouco conhecidas dos mitos. Heródoto, especialmente, procurou as várias tradições apresentando e encontrando as raízes históricas ou mitológicas no conflito entre a Grécia e o Oriente.

A poesia das eras Helenística e Romana, que embora tenha sido composta mais como literatura do que um exercício de culto aos mitos, contém muitos detalhes importantes que de outra forma seriam perdidos. Essa categoria inclui:

1. Os poetas romanos Ovídio, Sêneca e Virgílio.
2. Os poetas gregos da Antiguidade tardia: Antonino Liberal e Quinto de Esmirna.
3. Os poetas gregos do Período Helenístico: Apolónio de Rodes, Calímaco, Eratóstenes e Partênio.
4. Antigos romances de gregos e romanos, como Apuleio, Petrônio e Heliodoro.
Em contrapartida com o gênero lírico, a Fabulae e a Astronomica do escritor romano Higino são duas composições não-poéticas importantes sobre o mito. As obras Imagens e Descrições, de Filóstrato e Calístrato (respectivamente), são dois trabalhos literários úteis para o estudo dos mitos gregos. Finalmente, o apologético cristão Arnóbio, citando práticas religiosas para desacreditá-las, e vários outros escritores bizantinos proporcionam detalhes importantes dos mitos, alguns deles procedentes de obras gregas perdidas durante os anos. Entre estes, inclui-se os léxicos de Hesíquio, a Suda, e os tratados de João Tzetzes e de Eustácio. O ponto de vista moralizador cristão a respeito dos mitos gregos se resume no dito ἐν παντὶ μύθῳ καὶ τὸ Δαιδάλου μύσος (en panti muthōi kai to Daidalou musos, "em todo mito está a profanação de Dédalo"), sobre o que disse a Suda que alude o papel de Dédalo ao satisfazer a "luxúria antinatural" de Pasífae pelo trono de Posídon: "Desde que a origem e a culpa desses males se atribuíram a Dédalo e foi odiado por eles, se converteu no objeto do provérbio."

Aquiles (esq.) mata um prisioneiro de Tróia diante de Caronte, numa pintura-vermelha etrusca, realizada no fim do século IV e início do século III a.C..


Fontes arqueológicas
A descoberta da civilização micênica pelo arqueólogo amador alemão Heinrich Schliemann no século XIX, e a descoberta da civilização minóica em Creta pelo arqueólogo britânico Sir Arthur Evans no século XX, ajudaram a esclarecer muitas dúvidas a respeito dos épicos de Homero e outras questões da mitologia, como as crenças em deuses e em heróis. A evidência sobre os mitos e os rituais nos sítios arqueológicos das civilizações micênica e minóica é inteiramente monumental, uma vez que a linear B (método de escrita antigo, encontrado em Creta e na Grécia continental) era usada principalmente para o registro de inventários, embora os nomes de deuses e de heróis tenham sido dificilmente revelados.

Schliemann começou seu trabalho em 1870, com o intuito de averiguar se as histórias que ouvia de seu pai quando criança, a respeito dos épicos homéricos, eram verdadeiras; numa madrugada, juntamente com sua esposa, conseguiu encontrar dois diademas de ouro, 4.066 plaquetas, 16 estatuetas, 24 colares de ouro, anéis, agulhas, pérolas (total de 8.700 artefatos) e pesquisas posteriores deixaram certezas que a mítica cidade de Tróia existiu no local há milênios.

Existem desenhos geométricos em cerâmica datados do século VIII a.C. que retratam o Ciclo de Tróia, como também as aventuras de Hércules. Por dois motivos, essas representações visuais dos mitos possuem enorme importância: em primeiro lugar, muitos mitos gregos foram comprovados em desenhos de vasos antes do que na literatura escrita–das doze elaborações sobre Hércules, por exemplo, somente a aventura de Cérbero é apresentada pela primeira vez em um texto literário–e, em segundo lugar, as fontes visuais muitas vezes fornecem cenas míticas que não são apresentadas em quaisquer fontes literárias existentes. Em alguns casos, a primeira representação conhecida de um mito na arte geométrica antecede, em questão de muitos anos e séculos, a sua primeira aparição conhecida na poesia arcaica. Nos períodos Arcaico (750–c. 500 a.C), Clássico ( 480–323 a.C), e Helenístico, Homero e várias outras personalidades surgem para completar as evidências literárias da existência da mitologia grega.

Descrição topográfica da Península Balcânica.


Historia
Um dos fatores de evolução da mitologia grega foi a grande transformação que ela experimentou através dos tempos, e tal transformação serviu para enriquecer sua própria cultura. Os primeiros habitantes da Península Balcânica, em grande parte agricultores, atribuíam a cada aspecto da natureza um espírito. Finalmente, estes espíritos vagos assumiram a forma humana e entraram na mitologia local como deuses e deusas. Quando as tribos do norte invadiram a Península Balcânica, trouxeram consigo um novo panteão de deuses e crenças, voltadas à conquista, à força e à valentia, à batalha e ao heroísmo violento. Outras divindades mais antigas que povoavam a mente dos habitantes agrícolas se fundiram com aquelas dos invasores mais poderosos, ou então desvaneceram-se na insignificância.

A mais alta montanha da Grécia, o Monte Olimpo, em foto de 2005, onde os gregos antigos acreditavam ser a morada dos Doze Deuses.


Após a metade do período arcaico, que possuía mitos sobre as relações entre homens e deuses masculinos, os heróis tornaram-se cada vez mais aclamados, indicando o desenvolvimento paralelo da pederastia pedagógica, que pensa-se ter sido introduzido por volta de 630 a.C. Nos finais do século V a.C, os poetas haviam atribuído pelo menos um eromenos à todos os deuses importantes, exceto Ares e outras figuras lendárias. Outros mitos anteriormente existentes, como o de Aquiles e o de Pátroclo, foram reinterpretadas como mitologia homossexual.

O sentido da poesia épica foi criar ciclos históricos, e resultar num desenvolvimento de um senso da cronologia mitológica; assim, a mitologia grega desdobra-se como uma etapa no desenvolvimento do mundo e do homem. As auto-contradições nas histórias fazem com que seja impossível montar um cronograma absoluto a respeito da Mitologia grega, mas podemos elaborar uma cronologia concordável. A história mitológica do mundo pode ser dividida em 3 ou 4 grandes períodos:

1. Mito da origem ou da era dos deuses: é a teogonia, o nascimento dos deuses, os mitos sobre a origem do planeta, dos deuses e da raça humana.
2. Era em que os homens e os deuses se mesclam livremente: histórias das primeiras interações entre deuses, semi-deuses e mortais juntos.
3. Era dos heróis (era heróica): onde a atividade divina ficou mais limitada. As últimas e maiores lendas heróicas são da Guerra de Tróia e suas consequências (consideradas por alguns investigadores como um quarto período separado).
Embora a Era dos deuses tem sido freqüentemente alvo de interesse pelos alunos contemporâneos da mitologia grega, os autores arcaicos e clássicos possuíam uma clara preferência pela Era dos heróis. As heróicas Ilíada e Odisséia, por exemplo, estavam e ainda se encontram atualmente sobre maior destaque que a Teogonia e que os hinos homéricos – e prevaleceram em popularidade e continuidade. Sob a influência de Homero, o culto heróico conduziu uma reestruturação na vida espiritual, expresso na separação entre o reino dos deuses do reino dos mortos (heróis), e dos deuses olímpicos dos ctónicos. No O Trabalho e Os Dias, Hesíodo monta um esquema de quatro Era dos homens (ou Raças): de Ouro, de Prata, de Bronze e de Ferro. Estas raças ou eras são criações separadas dos mitos dos deuses, correspondendo à Era Dourada ao reino de Cronos e sendo as seguintes raças criações de Zeus. Hesíodo intercalou a Era (ou Raça) dos heróis pouco depois da Idade do Bronze. A ultima idade foi a Idade do Ferro. Em Metamorfoses, Ovídio segue o conceito de Hesíodo e apresenta essas quatro idades.

O Amor Conquista Tudo), representação do deus do amor, Eros, por Michelangelo Merisi da Caravaggio, (1601-1602).


Era dos deuses

Cosmogonia e cosmologia


“ Ἤτοι μὲν πρώτιστα Χάος γένετ'· αὐτὰρ ἔπειτα Γαῖ' εὐρύστερος, πάντων ἕδος ἀσφαλὲς αἰεὶ.
Pois bem, no princípio nasceu Caos; depois, Gaia de amplo seio, a eterna base de tudo ”
— Hesíodo, Teogonia


"Mitos de origem" ou "mitos de criação", na mitologia grega, são termos alusivos à intenção de fazer com que o universo torne-se compreensível e com que a origem do mundo seja explicada. Além de ser o mais famoso, o relato mais coerente e mais bem estruturado sobre o começo das coisas, a Teogonia de Hesíodo também é visto como didático, onde tudo se inicia com o Caos: o vazio primitivo e escuro que precede toda a existência. Dele, surge Gaia (a Terra), e outros seres divinos primordiais: Eros (atração amorosa), Tártaro (escuridão primeva) e Érebo. Sem intermédio masculino, Gaia deu à luz Urano, que então a fertilizou. Dessa união entre Gaia e Urano, nasceram primeiramente os Titãs: seis homens e seis mulheres (Oceano, Céos, Créos, Hiperião, Jápeto, Téia e Reia, Têmis, Mnemosine, Febe, Tétis e Cronos); e logo os Ciclopes de um só olho e os Hecatônquiros (ou Centimanos). Contudo, Urano, embora tenha gerado estas divindades poderosas, não as permitiu de sair do interior de Gaia e elas permaneceram obedientes ao pai. Somente Cronos, "o mais jovem, de pensamentos tortuosos e o mais terrível dos filhos", castrou o seu pai–com uma foice produzida das entranhas da mãe Gaia–e lançou seus genitais no mar, libertando, assim, todos os irmãos presos no interior da mãe. A situação final foi que Urano não procriou novamente, mas o esperma que caiu de seus genitais cortados produziu a deusa Afrodite, saída de uma espuma da água, ao mesmo tempo que o sangue de sua ferida gerou as Ninfas Melíades, as Erínias e os Gigantes, quando atingiu a terra. Sem a interferência do pai, Cronos tornou-se o rei dos deuses com sua irmã e esposa Reia como cônjuge e os outros Titãs como sua corte.

O pensamento antigo grego considerava a teogonia–que engloba a cosmogonia e a cosmologia, temas desssa subseção–como o protótipo do gênero poético e lhe atribuía poderes quase mágicos. Por exemplo: Orfeu, o poeta e músico da mitologia grega, proclamava e cantava as teogonias com o intuito de acalmar ondas e tormentas–como consta no poema épico Os Argonautas, de Apolónio de Rodes–e também para acalmar os corações frios dos deuses do mundo inferior, quando descia à Hades. A importância da teogonia encontra-se também no Hino Homérico à Hermes, quando Hermes inventa a lira e a primeira coisa que faz com o instrumento em mãos é cantar o nascimento dos deuses.

Cronos Mutilando Urano, por Giorgio Vasari e Gherardi Christofano (século XVI). Palazzo Vecchio, Florença.


Contudo, a Teogonia não é somente o único e mais completo tratado da mitologia grega que se conservou até nossos dias, mas também o relato mais completo no que diz respeito a função arcaica dos poetas, com sua larga invocação premilinar das Musas. Foi também tema de muitos poemas perdidos, incluindo os atribuídos à Orfeu, Museu, Epimênides, Ábaris e outros profetas legendários, cujos versos costumavam ser usados em rituais privados de purificação e em religião de mistérios. Inclusive, há indícios de que Platão se familirizou com alguma versão da teogonia órfica. Poucos fragmentos dessas obras sobreviveram em citações de filósofos neoplatonistas e em fragmentos recentemente desenterrados, escritos em papiro. Um desses documentos, o papiro de Derveni, demonstra atualmente que pelo menos no século V a. C. existiu um poema teogônico-cosmogônico de Orfeu. Este poema tentou superar a Teogonia de Hesíodo e a genealogia dos deuses se ampliou com o surgimento de Nix (a Noite), marcando um começo definitivo que havia surgido antes dos seres Urano, Cronos e Zeus.

Os Doze Deuses Gregos (Zeus no trono), por Nicolas-André Monsiau (1754- 1837), finais do século XVIII.


Deuses gregos

“ ἐμοὶ δὲ θαυμάσαι θεῶν τελεσάντων οὐδέν ποτε φαίνεται ἔμμεν ἄπιστον.
Para mim, quando os deuses realizam maravilhas, nada parece inacreditável. ”
— Píndaro, Pi, P. 10.48-50.


Quando Cronos tomou o lugar de Urano, tornou-se tão perverso quanto o pai. Com sua irmã Reia, procriou os primeiros deuses olímpicos (Héstia, Deméter, Hera, Hades, Posídon e Zeus), mas logo os devorou enquanto nasciam, pelo medo de que um deles o destronasse. Mas Zeus, o filho mais novo, com a ajuda da mãe, conseguiu escapar do destino e travou uma guerra contra seu progenitor, cujo vencedor ganharia o trono dos deuses. Ao final, com a força dos Cíclopes–a quem libertou do Tártaro–Zeus venceu e condenou Cronos e os outros Titãs na prisão do Tártaro, depois de obrigar o pai a vomitar seus irmãos. Para a mitologia clássica, depois dessa destituição dos Titãs, um novo panteão de deuses e deusas surgiu. Entre os principais deuses gregos estavam os olímpicos- cuja limitação de seu número para doze parece ter sido uma idéia moderna, e não antiga - que residiam no Olimpo abaixo dos olhos de Zeus. Nesta fase, os olímpicos não eram os únicos deuses que os gregos adoravam: existiam uma variedade de divindades rupestres, como o deus-cabra Pã, as ninfas— Náiades (que moravam nas nascentes), Dríades (espíritos das árvores) e as Nereidas (que habitavam o mar) —, deuses de rios, Sátiros e outras divindades que residiam em florestas, bosques e mares. Além dessas criaturas, existiam no imaginário grego seres como as Erínias (ou Fúrias) (que habitavam o submundo), cuja função era perseguir os culpados de homicídio, má conduta familiar, heresia ou perjúrio.

Para honrar o antigo panteão grego, compôs-se os famosos hinos homéricos (conjunto de 33 canções). Alguns estudiosos, como Gregory Nagy, consideram que os hinos homéricos são simples prelúdios, se comparado com a Teogonia, onde cada hino invoca um deus. No entanto, os deuses gregos, embora poderosos e dignos de homenagens como as presentes nestes hinos, eram essencialmente humanos (praticavam violência, possuíam ciúme, coléra, ódio e inveja, tinham grandezas e fraquezas humanas), embora fossem donos de corpos físicos ideais. De acordo com o estudioso Walter Burkert, a definição para essa característica do antropomorfismo grego é que "os deuses da Grécia são pessoas, e não abstrações, idéias ou conceitos". Independentemente de suas formas humanas, os deuses gregos tinham muitas habilidades fantásticas, sendo as mais importantes: ter a condição de ser imúne a doenças, feridas e ao tempo; ter a capacidade de se tornar invisível; viajar longas distâncias instantaneamente e falar através de seres humanos sem estes saberem. Os gregos consideravam a imortalidade — que era assegurada pela alimentação constante de ambrosia e pela ingestão de néctar — como a característica distintiva dos deuses.

Olimpo (século XVIII), de Giovanni Battista Tiepolo (Museo del Prado, Madrid).


Cada deus descende de uma genealogia própria, prossegue interesses próprios, tem uma certa área de especialização, e é regido por uma personalidade singular; no entanto, essas descrições surgem a partir de uma infinidade de locais arcaicos variantes, que não coincidem sempre com elas. Quando esses deuses eram aludidos na poesia, na oração ou em cultos, essas práticas eram realizadas mediante uma combinação de seus nomes e epitetos, que os identificavam por essas distinções do resto de suas próprias manifestações (e.x. Apolo Musageta era "Apolo, [como] chefe das Musas").

A maioria dos deuses foram associados a aspectos específicos de suas vidas: Afrodite, por exemplo, era deusa do amor e da beleza, Ares era deus da guerra, Hades o deus da morte, e Atena a deusa da sabedoria e da coragem. Certos deuses, como Apolo e Dionísio, apresentam personalidades complexas e mais de uma função, enquanto outros, como Héstia e Hélios, revelam pequenas personificações. Os templos gregos mais impressionantes tendiam a estar dedicados a um número limitado de deuses, que foram o centro de grandes cultos panhelênicos. De maneira interessante, muitas regiões dedicavam seus cultos a deuses menos conhecidos e muitas cidades também honravam os deuses mais conhecidos com ritos locais característicos e lhes associavam mitos desconhecidos em outros lugares. Durante a era heróica — que veremos na próxima sub-seção — o culto dos heróis (ou semi-deuses) complementou a dos deuses e ambas as criaturas se fundiram no imaginário da Grécia.

Venus (Afrodite na mitologia grega) e Anchises, por Annibale Carracci: o relacionamento entre a deusa da beleza (conhecida como Vênus na mitologia greco-romana) e um homem mortal, demonstra como ficou frequente as relações entre deuses e humanos no imaginário grego.


Era dos deuses e dos mortais
Unindo a idade em que os deuses viviam sós e a idade em que a interferência divina nos assuntos humanos era limitada, havia uma era de transição em que os deuses e os homens (mortais) se misturaram livremente. Estes foram os primeiros dias do mundo, quando os grupos se misturavam com mais liberdade do que fizeram depois. A maior parte das crenças dessas histórias foram reveladas posteriormente na obra Metamorfoses de Ovídio, e frequentemente são divididas em dois grupos temáticos: histórias de amor e histórias de castigo. Ambas histórias tratam do envolvimento dos deuses com os humanos, seja de uma forma ou de outra:

Os contos de amor muitas vezes envolvem incesto, sedução ou violação de uma mulher mortal por parte de um deus, resultando em uma descendência histórica. Essas histórias sugerem geralmente que as relações entre deuses e mortais precisam ser evitadas, sendo que raramente esses envolvimentos possuem finais felizes. Em poucos casos, uma divindade feminina procura um homem mortal e vive com ele, como no Hino Homérico à Afrodite, onde a deusa convive com o príncipe Anchises e acaba concebendo o chefe troiano Enéias.
Os contos de castigo envolvem a apropriação ou invenção de algum artefato cultural importante, como quando Prometeu roubou o fogo dos deuses e quando ele ou Licaão inventou o sacríficio, quando Tântalo roubou o néctar e a ambrósia da mesa de Zeus e de seus súditos, revelando-lhes o segredo dos deuses, ou quando Deméter ensinou agricultura e os Mistérios de Elêusis a Triptolemos, ou quando Mársias inventou os aulos e, com ela, ingressou num concurso musical ao lado de Apolo. As aventuras de Prometeu marcam um ponto entre a história dos deuses e a dos homens. Um fragmento de papiro anônimado, datado do século III a.C., retrata vividamente o castido que Dionísio aplicou à Lucurgo, rei de Trácia, cujo reconhecimento de novos deuses chegou demasiado tarde, ocasionando horrivéis penalidades que se estenderam por toda vida. A história da chegada de Dionísio para estabelecer seu culto em Trácia foi também o tema de uma trilogia de peças dramáticas do poeta antigo Ésquilo: como em As Bacantes, onde o rei de Tébas, Penteu, é castigo por Dionísio por ter sido desrespeitoso com as Ménades, suas adoradoras.
Ainda no assunto de relação entre deuses e mortais, há um conto antigo baseado em um tema folclórico, onde Deméter está procurando por sua filha Perséfone, depois de ter tomado a forma de uma anciã chamada Doso e recebido hospitalidade de Celéu, o rei de Elêusis em Ática. Por causa de sua hospitalidade, Deméter planejou fazer imortal seu filho Demofonte, como um ato de agradecimento, mas não pôde completar o ritual porque a mãe de Demofonte, Metanira, entrou e viu seu filho rodeado de fogo, visão essa que lhe provocou, instantâneamente, um grito agudo, que enfureceu Deméter, cuja lamentação veio depois, ao refletir o fato de que os "estúpidos mortais não entendem práticas divinas".

“ O fato de entre os homens e os deuses existir ainda uma terceira classe especial de heróis, que são denominados também "semi-deuses", é uma particularidade da mitologia e da religião gregas para a qual quase não existem paralelos. ”
— Walter Burkert, 1993.


Era heroica
A idade em que os heróis viveram na mitologia grega é conhecida como Era (ou Idade) Heróica.[71] A Era Heróica surgiu no Período Arcaico, quando os gregos imaginavam "heróis" (gr. ἥρωες; sg. ἥρως) como certos personagens de lendas épicas. Embora sujeitos à mortalidade, os heróis/semi-deuses se diferenciavam dos humanos pelo fato de serem capazes de façanhas impossíveis, talvez pelo fato de serem frutos de uma relação entre um mortal e um deus.

Após a ascensão do culto heróico, os deuses e os heróis constituíram a esfera sagrada e são invocados juntos nos juramentos e nas orações que são dirigidas a eles. Em contraste com a era dos deuses, durante a heróica a lista de heróis nunca é fixa e definitiva; já não nascem grandes deuses, mas sempre podem surgir novos heróis do exército dos mortos. Outra importante diferença entre o culto dos deuses e o dos heróis é que o segundo dos dois se torna o centro da identidade do grupo local.

Os eventos monumentais de Hércules são considerados o começo da era dos heróis. Também se anexam a eles três grandes sucessos militares: a expedição argonáutica e a Guerra de Tróia, como também a Guerra de Tebas.

Escultura de Hércules, artista desconhecido. Arte romana datada do século II a.C., Musei Capitolini, Roma, Itália.


Hércules e os Heráclidas
Certos estudiosos acreditam que, por de trás das complexas histórias que envolvem o mito de Hércules (ou Herácles), existiu um homem verdadeiro, talvez um senhor de vassalos em Argos. Outros sugerem que o mito de Hércules é uma alegoria da passagem anual do sol pelas doze constelações do zodíaco. Existe um terceiro grupo que acredita que o mito deriva de outros culturas, revelando que a história de Hércules é uma adaptação regional de mitos heróicos já estabelecidos anteriormente. Embora a existência de todas essas e muitas outras especulações, a tradição afirma que Hércules foi filho de Zeus com a mortal Alcmena, neta de Perseu. Suas fantásticas façanhas, que envolvem diversos temas folclóricos, proporcionaram muito material às lendas populares. É retratado como um sacrificador, um guerreiro dotado de imenso vigor físico, com força e proezas maravilhosas, protegido por armaduras e itens das quais utilizava com destreza, demonstrando superioridade às habilidades do homem mortal comum. Quanto à iconografia, nas artes visuais — pelo menos no período arcaico — Hércules sempre fora apresentado com barba, pele de leão e clava nas mãos, com grandes músculos expostos nas pernas e nos braços. Já no século IV, a popularidade do herói decresceu e, talvez um pouco por isso, suas características humanas foram reforçadas mais do que as heróicas, e passou a ser representado sem barba e frequentemente sem armas de combate.

Na literatura, Eurípedes produziu a peça trágica Hércules (ou Hércules Enlouquecido, Hércules Furioso), onde explora o mito do herói, revelando a conturbada existência da figura em questão, que está prestes a cometer suícidio, mas que é encorajado a viver pelo amigo e rei de Atenas, Teseu. Na peça As Traquinianas, Hércules aparece aqui através da escrita de Sófocles. Esses dois textos da Grécia antiga, resguardados até os dias atuais, nos conferiram detalhes preciosos acerca dos mitos sobre o herói mais popular e interessante da mitologia grega.

Os Heráclidas eram descendentes de Hércules. Nesta antiga escultura, o legendário herói e seu bebê Télefo. (Museu do Louvre, Paris.)


Hércules atingiu o mais alto prestígio social através de sua nomeação como ancestro oficial dos reis dóricos. Isto serviu provavelmente como legitimação para as invasões dóricas no Peloponeso. Um exemplo disto é o herói mitológico Hilo, epônimo de uma tribo dórica, que se converteu em Heráclida (nome que recebiam os numerosos descendentes de Hércules, especialmente os descendentes de Hilo — outros Heráclidas existentes são Macária, Lamos, Manto, Tlepólemo e Télefo). Estes Heráclidas conquistaram os reinos peloponesos de Micenas, Esparta e Argos, alegando, segundo o mito, o direito de governá-los devido sua ascendência. A ascensão dos Heráclidas é muitas vezes denominada "Invasão Dórica" (ver artigo). Um fato interessante é que os reis lídios e, posteriormente, os reis macedôniso — como governantes de um mesmo reino — também passaram a ser Heráclidas.

Embora Hércules tenha morrido, como é destino de todo mortal, por conta de seu lado humano (derivado da mãe Alcmena), alguns gregos — especialmente Píndaro, que o chamava de "herói-deus" — acreditavam que, por conta de seu lado divino (advindo da descendência de Zeus), ele subiu ao Olimpo e tornou-se um deus. A figura lendária deste herói, portanto, permeou durante algum tempo uma simbologia voltada à terra, aos heróis, ao homem mortal, mas também atencionada ao céu, aos deuses, ao divino, ao perfeito, ao que é ideal. Essa figura mista que Hércules apresenta, em que o lado mortal e o lado divino se confundem, era muito reforçada em diversos cultos e sacrifícios realizados provavelmente em Creta, onde os gregos ofereciam-lhe sacrifícios primeiramente como herói e, somente depois, como um ser divino.

Além das façanhas heróicas de Hércules, outros membros dessa primeira geração de heróis, como Perseu, Teseu, Deucalião e Belerofonte, realizaram feitos muito semelhantes à ele, sempre realizando-os solitariamente, sem nenhuma outra ajuda, o que aconteceu quando enfrentaram monstros como Quimera e Medusa em mitos que beiram à contos de fadas (esses combates solitários só apresentam ainda mais a capacidade sobrehumana dessas personagens). Enviar um herói a uma morte presumida é um tema frequente nesta primeira tradição heróica, como acontece nas lendas de Perseu e de Belerofonte.

Jasão levando os Argonautas à buscar o Velo de Ouro. Arte da Roma Antiga. Autor desconhecido.


Argonautas
Único épico helenístico conservado até os dias atuais, Argonautica, de Apolônio de Rodes, narra o mito da jornada de Jasão e os Argonautas para recuperarem o Velo de Ouro da mítica terra de Cólquida. Em Argonautica, Jasão é impelido à sua busca pelo rei Pélias, que havia recebido uma profecia onde um homem de sandálias se tornaria seu nêmesis. Jasão perde uma sandália em um rio da região, chegando na corte de Pélias e iniciando, assim, a epopéia. Quase todos os membros da seguinte geração de heróis, assim como Hércules, partiram com Jasão ao Argo para buscar o velo de ouro.

Essa geração de heróis também inclui: o mito de Teseu, que partiu à Creta para enfrentar o Minotauro; Atalanta, a heroína feminina; e Meleagro, que por sua vez tinha um ciclo épico que rivalizava com a Ilíada e a Odisséia. Píndaro, Apolônio e Apolodoro se esforçaram em dar listas detalhadas sobre os Argonautas.

Embora Apolônio tenha escrito seu poema no século III a.C, a composição da história dos argonautas é anterior à Odisséia, que demonstra familiaridades com os enredos de Jasão. Em épocas antigas, a expedição mítica era considerada como um fato histórico, um incidente na abertura do Mar Negro ao comércio e à colonização grega. Também tornou-se muito popular, cuja função vai desde a criação de novas lendas locais à inspiração de diversas tragédias gregas.

"Cadmo Semeando Dentes do Dragão", por Maxfield Parrish, 1908.


Casa de Atreu e Ciclo Tebano
Entre o Argo (capítulo anterior) e a Guerra de Tróia (capítulo seguinte), houve uma geração conhecida por seus crimes. Isto inclui os feitos de Atreu e Tiestes em Argos. Atrás do mito da casa de Atreu (uma das principais dinastias heróicas juntamente com a Casa de Lábdaco), está o problema da devolução do poder e a forma de ascensão do trono. Os gêmeos Atru e Tiéstes com seus descendentes desempenharam o papel de protagonistas na tragédia acerca da devolução de poder em Micenas.

O Ciclo Tebano trata dos sucessos associados especialmente à Cadmo, o fundador da cidade de Tebas, e, posteriormente, com os feitos de Laio e Édipo na mesma região; uma série de histórias que levaram ao saqueio final da cidade a mando dos Epigonis e d'Os Sete Contra Tebas (não se sabe se estes figuraram no épico original). Acerca de Édipo, os antigos relatos épicos têm seguido um padrão diferente (no qual ele continuou governando Tebas depois da revelação de que Jocasta era sua mãe e também posteriormente ao seu casamento com uma mulher que se converteu em mãe de seus filhos) do que conhecemos graças às tragédias — especialmente a mais famosa do assunto, Édipo Rei, de Sófocles — e aos relatos mitológicos posteriores a este texto antigo.

Na pintura A Fúria de Aquiles , de Tiepolo (1757, afresco, 300 x 300 cm, Villa Valmarana, Vicenza), Aquiles está enfurecido pela ameaça de Agamemnon de tirar seu despojo da guerra, Briseis, e desembainha sua espada para espetá-lo. A súbita aparição de Minerva, que no afresco segura os cabelos de Aquiles, evita o assassinato.


Guerra de Tróia e consequências
A mitologia grega culmina na Guerra de Tróia, a famosa luta entre os gregos e os troianos, incluindo suas causas e consequências. Nos trabalhos homéricos, as principais histórias já haviam tomado forma e substância, e os temas individuais foram elaborados mais tarde, especialmente dentro dos enredos dos dramas gregos. A Guerra de Tróia adquiriu também um grande interesse para a cultura romana por conta das histórias de Enéas, herói troiano, cuja jornada à Tróia levou a fundação da cidade que um dia se converteria em Roma, e é recontada por Vírgilio em Eneida (cujo Livro II contém o relato mais famoso do saqueio de Tróia).

O Ciclo da Guerra de Tróia, uma coleção de poemas épicos, começa com os sucessos que levaram a guerra: Éris e a maçã de ouro, o julgamento de Páris, o rapto de Helena, e o sacríficio de Ifigénia em Aulis. Para resgatar Helena, os gregos organizaram uma grande expedição abaixo do mando do irmão de Menelau, Agamemnon, rei de Argos ou de Micenas, mas os troianos não quiseram libertá-la. A Ilíada, que se desenrola no décimo ano da guerra, narra em uma de suas páginas o combate entre Agamemnon com Aquiles, que era até então o melhor guerreiro da Grécia, e também narra as consequências da morte de Pátroclo (amigo de Aquiles) e de Heitor, filho mais velho de Príamo. Antes da morte, se uniram aos troianos dois exóticos aliados: Pentesileia e Memnon.

Escultura de Caio Plínio Segundo representando o Grupo de Laocoonte (Museu do Vaticano, Roma), personagens mortos por serpentes marinhas num espisódio da Guerra de Tróia, retratado na Ilíada e na Eneida.


Aquiles matou ambos, até Páris atingir seu calcanhar mortalmente com uma flecha (daí a expressão Calcanhar de Aquiles; para mais informações, veja o artigo do guerreiro). Antes de tomar Tróia, os gregos tiveram que roubar da cidadela a imagem de madeira de Palas Atenas. Finalmente, com a ajuda de Atenas, eles construíram o Cavalo de Tróia. Apesar das advertências de Cassandra (filha de Príamo), os gregos foram convencidos por Sinon — grego que, fingindo sua argumentação, conseguiu levar o gigantesco cavalo para dentro das muralhas de Atenas. O sacerdote Laocoonte tentou destruir o cavalo, mas acabou sendo impedido por serpentes marinhas que, com suas forças, o mataram. Ao anoitecer, a frota grega regressou e os guerreiros do cavalo abriram as portas da cidade.

O Ciclo Troiano proporcionou uma variedade de temas e se converteu em fonte principal de inspiração para os antigos artistas gregos (por exemplo, as métopas de Partenon representando o saqueio de Tróia). Essa preferência artística pelos temas procedentes do ciclo troiano nos indica sua importância para a antiga civilização grega. O mesmo ciclo mitológico, posteriormente, também inspirou uma série de obras literárias da Europa. Os escritores europeus medievais troianos, desconhecedores da obra de Homero, encontraram na lenda de Tróia uma rica fonte de histórias heróicas e românticas e um marco que encorajou seus próprios ideais cortesãos e cavalarescos. Alguns autores do século XII, como Benoît de Sainte-Maure (em seu Poema de Tróia) e José Iscano (em seu De bello troiano), descrevem a guerra simplesmente reescrevendo a versão padrão que encontraram em Dictis e Dares, seguindo o conselho de Horácio e o exemplo de Virgílio: reescrever um poema de Tróia com veracidade, em lugar de contar algo completamente novo.

Concepções greco-romanas
O mito era o coração da sociedade grega antiga; os gregos, crentes nas histórias e nas narrativas dos poetas, estabeleceram rituais, processos, sistemas, cultos e práticas cada vez mais fundamentadas nesses lendas heróicas, divinas e humanas. Desde aquele tempo, no entanto, o ser humano precisou criar concepções lógicas acerca dessas histórias, contadas apenas por poetas. Segundo os estudiosos Victor Davis Hanson e John Heat, poucos duvidavam da veracidade dos mitos relatados, e Homero era a "educação da Grécia", atribuição que prova como os mitos gregos eram a verdade (o que hoje seria a ciência, e algumas formas de religião e crenças).

Filosofia e mito
A filosofia surge através do mito, mas a ele acaba se opondo. Nos finais do século V a.C., depois do auge da filosofia, da oratória, e da prosa, o destino e a veracidade dos mitos se tornaram incertos e as genealogias mitológicas deram lugar a uma nova concepção da origem das coisas, sendo que essa concepção tinha como prioridade a exclusão do supernatural (isto se mostra claro nas histórias tacidianas). Enquanto os poetas e dramaturgos elaboravam os mitos, os historiadores e os filósofos desprezavam-os e criticavam-os.

O Platão e o Aristóteles de Rafael no afresco A Escola de Atenas (provavelmente com as aparências de Da Vinci e de Michelangelo): exclusão dos estudos de Homero, das tragédias e das tradições mitológicas, para dar espaço à outras concepções, na utópia A República.


Certos filósofos radicais, como Xenófanes, começaram no século VI a. C. a rotular os textos dos poetas como blasfêmias: Xenófones queixava-se de que Homero e Hesíodo atribuiam aos deuses "tudo o que é vergonhoso e escandaloso entre os homens, pois os deuses roubam, matam, cometem adultério, e enganam uns aos outros". Essa linha de pensamento encontrou sua expressão mais dramática em A República (acerca da justiça, do universo e dos diversos tipos de governo) e em Leis (que trata da lei divina e natural, da educação e da relação entre filosofia, política e religião) de Platão. Platão criou os seus próprios mitos alegóricos (como o de Er em A República), atacando os contos tradicionais dos trucos, e tratando os furtos e os adultérios como imorais, opondo-se ao papel central que vinham tomando na literatura grega. A crítica de Platão - que rotulava os mitos de "palavrões antigos" - foi o primeiro exercício e desafio sério à tradição mitológica homérica. Aristóteles, por sua vez, criticou o enfoque filosófico pré-socrático quase-mitológico e destacou que "Hesíodo e os escritores telógicos estavam preocupados unicamente com o que lhes parecia plausível e não tinham respeito pelos outros [...] Mas não merece a pena tomar a sério os escritores que alardeiam o estilo mitológico; aqueles que procedem a demonstrar suas afirmações devem ser re-examinados".

As explicações filosóficas, que pretendiam revisar as mitológicas, criaram consequências para seus autores: Anaxágoras, por exemplo, partiu para um auto-exílio fora de Atenas, por duvidar que a lua fosse uma deusa (explicação mitológica) e afirmar que, pelo contrário, vislumbrava em sua terra mares e montanhas. Aristóteles, que não aceitava a explicação de que o titã Atlas carregava a terra e o céu nas costas (afirmação que rotulou de "ignorância e superstição do povo grego"), exilou-se por temer que terminasse como Sócrates, que obteve acusação de impiedade e morreu. Sócrates foi condenado com 71 anos, acusado, entre outras coisas, de ateísmo e de corromper os jovens com seus ensinamentos. Meleto, um dos acusadores, havia argumentado que "[...]Sócrates é culpado do crime de não reconhecer os deuses reconhecidos pelo Estado e de introduzir divindades novas; ele é ainda culpado de corromper a juventude. Castigo pedido: a morte". Sócrates, após ficar preso a ferros durante 30 dias, morreu num método de veneno da prisão da época.

Essas perseguições se estenderam épocas depois, atingindo seu auge na Idade média (onde o cristianismo substituiu a filosofia) e declinando durante o Renascimento e principalmente no Iluminismo (onde a filosofia grega começava a ser retomada e revisada). Todavia, Platão não cuidou de separar si mesmo e sua sociedade da influência dos mitos: sua própria caracterização de Sócrates é baseada nos patronos tradicionais trágicos e homéricos, usados pelo filósofo para louvar o curso de vida do seu mestre. Em Apologia de Sócrates, Platão prescreve o discurso dado supostamente por Sócrates em seu julgamento:

“ Mas talvez pudesse alguém dizer: "Não te envergonhas, Sócrates, de te aplicardes a tais ocupações, pelas quais agora está arriscado a morrer?" A isso, porei justo raciocínio, e é o seguinte: "não estás falando bem, meu caro, se acreditas que um homem, de qualquer utilidade, por menor que seja, deve fazer caso dos riscos de viver ou morrer, e , ao contrário, só deve considerar uma coisa: quando fizer o que quer que seja, deve considerar se faz coisa justa ou injusta, se está agindo como homem virtuoso ou desonesto. Porquanto, segundo a tua opinião, seriam desprezíveis todos aqueles semi-deuses que morreram em Tróia. E, com eles, o filho de Tétis, o qual, para não sobreviver à vergonha, desprezou de tal modo o perigo que, desejoso de matar Heitor, não deu ouvido à predição de sua mãe, que era uma deusa, e a qual lhe deve ter dito mais ou menos isto:
Filho, se vingares a morte de teu amigo Pátroclo e matares Heitor,
tu mesmo morrerás, porque, imediatamente depois de Heitor, o teu destino estará terminado" (Hom. Il. 18.96) [...]

A Morte de Sócrates (1787, MMA, NI), por David: nota-se entre os amigos de Sócrates e no carcereiro (o que lhe entrega a taça envenenada) uma profunda expressão de insatisfação.


Hanson e Heath estimam que a rejeição de Platão acerca da tradição homérica não obteve boa recepção pela base da civilização grega. Nesta etapa, os mitos mais antigos se mantiveram em cultos locais e seguiram influenciando a poesia e constituindo o tema principal da pintura e da escultura na Grécia antiga.

Complementamente, o dramaturgo do século V a.C. Eurípedes elaborava intertextualidade com as antigas tradições, embora ele tenha aplicado nos diálogos de suas personagens notas de dúvidas sobre a veracidade dessas histórias, mas o foco dessas peças era completamente voltada aos mitos. Curiosamente, muitas dessas obras de Eurípedes tinham como função responder à versões de um predecessor que havia inserido formas diferentes de um mesmo mito (assim, Eurípedes dava nova roupagem à lendas antigas). O dramaturgo impugna principalmente os mitos sobre os deuses e inicia sua crítica com um objetivo similiar ao previamente expresso por Xenócrates: "os deuses, como se representavam tradicionalmente, são demasiado antropomórficos".

Racionalismo helenístico e romano
No Helenismo, a mitologia adquire o prestígio do conhecimento da elite que encontrava nos feitos de seus possessores algo pertencente a determinada classe. Ao mesmo tempo, o giro cético da idade clássica tornou-se ainda mais defendida e pronunciada. O mitógrafo grego Evêmero, por exemplo, estabeleceu uma tradição cuja prioridade era buscar uma base histórica real para seres e eventos míticos.

Cícero via-se como o defensor da ordem estabelecida, apesar de seu ceticismo em relação aos mitos e sua inclinação de fazer concepções mais filosóficas sobre as divindades.


O racionalismo hermenêutico (relativo à Hermes) acerca do mito tornou-se ainda mais popular sob o Império Romano, graças às teorias fisicalistas do estoicismo e graças à filosofia espicurista. Os estoicos apresentavam explicações dos deuses e dos heróis como fenômenos físicos, enquanto que os evêmeristas compreendiam-os como figuras históricas. Contudo, os estoicos — assim como os neoplatonistas — promoviam os significados morais da tradição mitológica, frequentemente basendo-se nas etimologias gregas. Mediante sua mensagem epicuriana, Lucrécio buscava expulsar os temores supersticiosos das mentes de seus vizinhos e cidadãos. Lívio, igualmente, é cético acerca da tradição mitológica e clama que não tinha como intenção ajuizar tais lendas. O desafio dos romanos com um forte sentido apologético da tradição religiosa era defender essa tradição enquanto concediam que isto era frequentemente um terreno fértil para a superstição. O antiquário Varrão — que considerava a religião uma instituição romana de grande importância para a preservação do bem social — dedicou rigorosos anos de sua vida a estudar as origens dos cultos religiosos. Em sua Antiquitates Rerum Divinarum (que não sobreviveu aos nossos dias, embora De Civitate Dei, de Agostinho, conserva seu foco geral), Varrão argumenta que, enquanto o homem supersticioso teme os deuses, a autêntica persona religiosa os venera como parentes de uma mesma família.

Em sua obra, existiam três tipos de deuses:

Os deuses da natureza: personificações de fenômenos como a chuva e o fogo;
Os deuses dos poetas: inventados pelos bardos sem escrúpulos para incitar as paixões;
Os deuses da cidade: inventados pelos sábios legisladores para iluminar e acalmar a população.
Cotta, um acadêmico romano, ridicularizou tanto a acepção literal dos mitos como a alegórica, declarando rotundamente que ambas não teriam lugar na filosofia. Cícero, por sua vez, desprezava os mitos, mas, como Varrão, era enfático em seu apoio para a religião e suas consecutivas instituições estatais. É difícil saber quão baixo se estendia esse racionalismo na escala social. Cícero afirma que ninguém (nem mesmo velhos, mulheres ou crianças, ou qualquer outro tipo de coisa) é tolo a ponto de crer nos terrores de Hades ou na existência de Cila, de centauros e de outras criaturas compósitas, todavia o orador queixa-se constantemente do caráter supersticioso e crédulo das pessoas. De natura deorum é o resumo mais exaustivo dessa linha de pensamento fixada por Cícero.

Na religião romana, o culto do deus grego Apolo (na imagem estátua romana de um original grego, no Musei Capitolini, Roma) foi sincronizado com o culto de Sol Invicto. A adoração do sol como protetor do império permanceu como principal culto imperial até ser substiuído pelo Cristianismo.


Tendências sincronatórias
Durante a época do auge romano, apareceu uma tendência popular de sincronizar os múltiplos deuses gregos e estrangeiros em novos cultos estranhos e quase irreconhecíveis. A sincronização ocorreu principalmente pelo fato dos romanos terem um conjunto/panteão de mitos muito precário, fazendo com que a tradição de mitos gregos fossem misturadas com os principais deuses romanos (interligando equivalentes das duas tradições). Os deuses Zeus e Júpiter são exemplos desse envolvimento mitológico. Ainda nessa etapa de combinação entre duas tradições mitológicas, tudo indica que a associação dos romanos com a religião oriental resultou em mais sincronizações. Um exemplo é o culto do sol, introduzido em Roma depois das campanhas de Aureliano na Síria. As divindades Mitra e Baal, ambas asiáticas, foram sincronizadas com o deus grego Apolo e com Hélio numa só figura, o Deus Sol Invicto — que possuía (na imaginação dos povos) atributos somados e, nas práticas de cultos, ritos conglomerados. Apolo podia ser cada vez mais identificado na religião com Hélios ou incluso com Dionísio, mas os textos que recapitulavam seus mitos raramente refletiam essas metamorfoses. A literatura mitológica tradicional estava cada vez mais disassociada das práticas religiosas reais.

A coleção de Hinos Órficos e da Saturnália de Macróbio, conservadas desde o século II, também estão influídas pelas teorias racionalistas e pelas tendências sincronatórias. Os hinos órficos são um conjunto de composições poéticas pré-clássicas, atribuídas à Orfeu. Na realidade, estes poemas foram provavelmente compostos por vários poetas, e contém um rico conjunto de pistas sobre a mitologia pré-históricas da Europa. O objetivo da Saturnália é a de transmitir a cultura helênica que havia obtido de suas leituras, apesar de seu tratamento dos deuses ser contaminado pela mitologia e pela teologia egípcia e norte-africana (que também acabam afetando a interpretação de Virgílio). Na Saturnália, reaparecem os comentários mitográficos influídos pelos evemeristas, estoicos e pelos neoplatônicos.

Declínio
Na seção anterior, vimos como os historiadores acreditam que os gregos começaram a dar novas interpretações acerca das coisas, e como começaram a desacreditar dos poetas e dos dramaturgos, insistentes em inventar narrativas e lendas sobre a origem e os motivos das coisas. Ao tentar aprofundar sua compreensão sobre os mitos gregos, o homem da Grécia antiga encontrou certas limitações e contradições nessas histórias, o que desencadeou em uma série de processos filosóficos. A filosofia surge justamente para compreender a verdade, mas de uma outra forma. Para a intelectual brasileira Marilena Chaui uma dessas contradições foi o fato de que os gregos começaram a realizar certas viagens marítimas e explorar algumas regiões das quais acreditavam serem habitadas por deuses, sendo que, quando a visitaram, puderam constatar que era povoada por seres humanos

Concepção de um trirreme da Grécia Antiga: as explorações marítimas dos gregos – uma das primeiras do homem antigo – contribuíram para a decadência do mito.


Os estudiosos acreditam que os gregos, ao inventarem o calendário, conseguiram calcular o tempo como forma de prever e entender os estados térmicos e também o Sol, a chuva e outros fatores climáticos (vistos, anteriormente, como feitos divinos e incompreensíveis) e, assim, proporcionaram uma grande mudança na crença dos mitos. De forma semelhante, a invenção da moeda como forma de trocas abstratas e a escrita alfabética como forma de materialização de textos outrora propagados somente pela oratória, (além da invenção da política para a exposição das opiniões sociais) foram marcos da sociedade grega que, com o início dessa vida urbana e um tanto mais moderna, começou a tecer bases para o artesanato, o comércio e outras criações que começaram a desprezar os mitos.

Com essas mudanças, o homem se viu em uma necessidade de entendê-las e de desenvolvê-las, no que se criou a filosofia para suprir essa incompreensão. Os filósofos e estudiosos crêem, portanto, que as habilidades poderosas de mudança saíram das mãos dos deuses imaginários e foram assumidas pelos homens antigos (e se estendem até nossos dias atuais, onde, por exemplo, acreditamos que uma administração política adequada — realizada e levada em frente pelos homens e não pelos deuses — pode resultar numa influência positiva nas sociedades, assim como uma administração inadequada resulta em influências negativas).

O alemão Johann Joachim Winckelmann, através dos trabalhos de estudiosos como Gesner e Heyne, estabeleceu as primeiras distinções entre arte grega, greco-romana e romana.


Interpretações modernas
A gênesis da moderna compreensão da mitologia grega é considerada por certos escolares como uma dupla reação dos finais do século XVIII contra "a tradicional atitude da animosidade do cristianismo", onde a reinterpretação cristiana dos mitos como uma "mentira" ou "fábula" havia se conservado. Na Alemanha, em cerca de 1795, houve um crescente interesse por Homero e pela mitologia grega. Em Gotinha, Johann Matthias Gesner começou a dar alma aos estudos gregos, enquanto seu sucessor, Christian Gottlob Heyne, trabalhou com Johann Joachim Winckelmann, e desenvolveu as bases para a pesquisa e investigação mitológica tanto na Alemanha como em outros lugares. Heyne abordou o mito como filólogo e moldou os alemães educados na concepção da antiguidade ao longo de quase meio século, durante o qual a Grécia antiga exerceu uma intensa influência na vida intelectual da Alemanha.

A mitologia comparativa é a comparação dos mitos de diferentes culturas que possui a intenção de identificar os temas e as características compartilhadas. A mitologia comparativa tem servido de uma variedade de fins acadêmicos. Por exemplo: os estudiosos têm utilizado as relações entre os diversos mitos para rastrear a evolução das religiões e das culturas, para propor origens comuns de diferentes culturas, e para apoiar várias teorias psicológicas. Falando em psicologia, as modernas interpretações do mito grego abriu espaço para uma abrangente compreensão psicológica acerca deles. Alguns estudiosos propõem que mitos de diferentes culturas revelam a mesma, ou semelhante, força psicológica no trabalho dessas culturas. Assim, alguns pensadores freudianos têm identificado histórias semelhantes à história grega de Édipo em culturas diferentes. Eles argumentam que estas histórias refletem as diferentes expressões do Complexo de Édipo nessas culturas. De mesmo modo, pensadores junguianos têm identificado imagens, temas e padrões que aparecem, do mesmo modo, nos mitos de muitas culturas diferentes. Eles acreditam que essas semelhanças são resultados de arquétipos presentes no inconsciente coletivo dos níveis mentais de cada pessoa.

Max Müller é considerado um dos fundadores da mitologia comparativa. Em seu Mitologia Comparativa (1867), Müller analisa a "perturbadora" similaridade entre as mitologias de "raças selvagens" com as primeiras raças européias.


Enfoques comparativos e psicanalíticos
O desenrolar da filologia comparativa no século XIX — junto com os descobrimentos etnológicos do século XX — fundou a "ciência da mitologia". Desde o Romantismo, todo o estudo dos mitos era comparativo: Wilhelm Mannhardt, James Frazer e Stith Thompson ampliaram o foco comparativo para recoletar e classificar os temas do folclore e da mitologia. Em 1871, Edward Burnett Tylor publicou seu Primitive Culture, onde aplicou o método comparativo com a intenção de explicar a origem e a evolução da religião. O procedimento de Taylor de agrupar o material mítico, ritualístico e cultural de culturas ampliamente separadas influenciou tanto Carl Jung como Joseph Campbell. Max Müller aplicou a nova ciência da mitologia comparativa ao estudo dos mitos, no qual se detectou os restos distorcionados do culto à natureza ariana. Bronisław Malinowski enfatizou as formas nas quais os mitos cumpriam funções sociais comuns. Claude Lévi-Strauss e outros estruturalistas compararam as relações formais e paternas em mitos de todo o mundo.

Károly Kerényi foi um dos maiores estudiosos de mitologia e línguas clássicas do século XX.


Sigmund Freud, com a psicanálise, introduziu uma concepção transhistórica e biológica do homem a uma visão do mito como expressão de idéias reprimidas. Através de mitos como o de Édipo, Freud estabeleceu concepções inovadoras a respeito da mente humana, criando teorias diferentes de tudo o que se tinha pensado até então, como o Complexo de Édipo e, fundamentalmente, a idéia de inconsciente. Essa sugestão encontraria um importante ponto de acercamento entre as visões estruturalistas e psicoanalísticas dos mitos no pensamento de Freud. Carl Gustav Jung estendeu o enfoque transhistórico e psicológico com sua teoria do inconsciente coletivo e os arquétipos (patronos arcaicos herdados), às vezes codificiados nos mitos, que são derivados da mesma. Segundo Jung, "os elementos estruturais que formam os mitos devem ser apresentados na psique inconsciente". Comparando a metodologia de Jung com a teoria de Joseph Campbell, Robert A. Segal conclui que "para interpretar um mito, Campbell simplesmente identifica os arquétipos nele. Uma interpretação de A Odisséia, p. ex., mostraria como a vida de Odisseu se ajusta a um patrono heróico. Jung, pelo contrário, considera a identificação de arquétipos meramente no primeiro passo da interpretação de um mito". Károly Kerényi, um dos fundadores dos estudos modernos do mito grego, e um dos maiores estudiosos de tal folclore, abandonou seus primeiros pontos de vista sobre os mitos para aplicar as teorias de arquétipos de Jung à mitologia grega. Segundo Kerényi, a mitologia grega é "um conjunto de contos sobre deuses, deusas, batalhas heróicas e jornadas ao mundo subterrâneo, sendo contos famosos, mas já não tão propícios a possíveis reformulações."

Júpiter e Tétis (1811), quadro do francês neoclássico Dominique Ingres.


Teorias da origem
Existem diversas teorias sobre a origem da mitologia grega. De acordo com a Teoria Escritural, todas as lendas mitológicas procedem de relatos dos textos sagrados, no qual os feitos reais foram disfarçados e, posteriormente, alterados. A Teoria Histórica, por sua vez, defende a tese de que todas as personas mencionadas na mitologia foram uma vez seres humanos reais, e as lendas sobre elas são meras adições de épocas posteriores (assim, supõem-se que a história de Éolo surgiu do fato de que este era governante de algumas ilhas do Mar Tirreno). Já a Teoria Alegórica supõe que todos os mitos antigos eram alegóricos e simbólicos, embora tivessem em seu contexto determinada verdade moral, religiosa ou filosófica ou um fato histórico que, com o passar do tempo, passaram a ser aceitas como verdade. Contudo, a Teoria Física se adere à idéia de que os elementos como ar, fogo e água foram originalmente objetos de adoração religiosa, sendo que as principais deidades passaram a ser personificações desses poderes da natureza.

Estátua em mármore de Cíbele em Fórmias, 60 a.C.


Max Müller tentou compreender uma forma religiosa indo-européia determinando sua manifestação "original": em 1891, ele afirmou que "o descobrimento mais importante que se tem feito no século XIX a respeito da história antiga da humanidade [...] foi essa simples equação: Dyeus-pitar sânscrito = Zeus grego = Júpiter latino = Tyr nórdico." Em outros casos, perto dos paralelos o cárater e a função sugerem uma herança comum, mas a ausência de evidências linguísticas faz com que seja difícil prová-la, como na comparação entre Urano e o Varuna sânscrito, ou entre as Moiras e as Nornas. A arqueologia e a mitologia, numa outra consideração, tem revelado que os gregos foram inspirados por algumas civilizações da Ásia Menor e do Oriente Próximo. Adônis parece ser o equivalente grego — mais claramente nos cultos do que em suas histórias míticas — de um "deus moribundo" do Oriente Próximo. Tudo indica que Cíbele, por sua vez, tem suas raízes na cultura anatólica, enquanto grande parte da iconografia de Afrodite surge das deusas semíticas. Existem possíveis paralelismos entre as gerações divinas mais antigas (Caos e seus filhos) e Tiamat em Enuma Elish. Segundo o estudioso Meyer Reinhold, "os conceitos teogônicos do Oriente Próximo, incluindo a sucessão divina mediante a violência e os conflitos gerados pelo poder, encontraram seu caminho [...] na mitologia grega." Seguindo as origens indo-européias e do Oriente Próximo, alguns investigadores especulam sobre as obrigações da mitologia grega com as sociedades pré-helênicas: Creta, Micenas, Pilos, Tebas e Orcómeno. Os historiadores da religião estavam fascinados por várias configurações de mitos aparentemente antigos relacionados com Creta (o deus como toro, Zeus e Europa, Pasífae que produz toro e dá a luz ao Minotauro; etc.). O professor Martin P. Nilsson concluiu que todos os grandes mitos da Grécia antiga estavam atados aos centros micênicos e âncorados em épocas pré-históricas. Todavia, de acordo com Walter Burkert, a iconografia do período do palácio cretentese praticamente não tem dado confirmação alguma sobre a veracidade de todas estas teorias.

Importância

"O mito é o nada que é tudo.[...]"
— Fernando Pessoa


Localizada na juntura da Europa, Ásia e África, a Grécia é o berço de nascimento da democracia, da filosofia ocidental, dos Jogos Olímpicos, da Literatura ocidental e da historiografia, bem como da Ciência política, dos mais importantes princípios matemáticos, e também o berço de nascimento do teatro ocidental, incluindo os gêneros do drama, tragédia e o da comédia. Apaixonados pelo debate e pela controvérsia, os gregos criaram os primeiros ordenamentos políticos com cunho democrático, onde compartilhavam e defendiam argumentações. Esses princípios fundamentais definiram o curso do mundo ocidental, e também divulgaram a mitologia grega, que ainda se torna eficiente, segundo muitos autores, para a educação acadêmica nas escolas de ensino fundamental e superior, como também para um entendimento mais profundo e filosófico do ser humano, como veremos a seguir:

Educação e literatura
Em Como e por que ler os clássicos universais desde cedo (2002), livro que dá dicas de como impor de forma criativa e prazerosa os grandes clássicos da cultura ocidental para as crianças, Ana Maria Machado considera a cultura grega antiga como um tesouro da humanidade que desperta entusiasmo a muitos leitores de diferentes épocas. Machado ainda complementa: "[a cultura grega antiga] são uma fonte inesgotável, onde sempre podemos beber. Para muita gente, eles são os mais fascinantes de todos os clássicos. Provavelmente são os que mais marcaram toda a cultura ocidental."

"Os jovens que têm cultura clássica estão menos sujeitos a se deixarem escravizar por seitas limitadoras, por religiões aprisionadoras. Eles têm uma liberdade espiritual trazida pela consciência de que a cultura tem sua história, seu desenvolvimento, sua diversidade."
— JAA Torrano, 2005

Hoje em dia, a preocupação escolar acerca da criação de um "aluno leitor" bem formado, principalmente em países em desenvolvimento como o Brasil, busca caminhos na literatura grega que aproximem esse aluno das histórias míticas enraizadas em temas como amor, ódio, felicidade e morte, para que esses alunos sintam-se seduzidos pelo bom livro, afim de se interessarem por literatura. Para o estudioso Roland Barthes, se todas as disciplinas desaparecessem dos currículos universitários, bastaria que permanecesse a literatura porque essa contém todas as outras. A literatura grega, segundo Barthes, contribuiria para a formação de leitores críticos e sensíveis com sua realidade, porque "[são] um logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem."

Para alguns estudiosos e pesquisadores em educação, restou aos cargos da pedagogia compartilhar e criar interesse na leitura de uma bibliografia competente e agradável ao aluno. Se, por um lado, a utilização da mitologia grega nas salas das faculdades ou das escolas pode parecer uma atividade sem originalidade, a professora Kênia Maria de Almeida Pereira, em um ensaio da Universidade Federal de Uberlândia, defende que estudá-la seria "[...] uma atividade complexa e atual, rica em detalhes, prazerosa e surpreendente." Ela cita Julia Kristeva, que afirmava que todo texto se converte num mosaico de citações, de absorção e transformação de outros textos, e também cita Umberto Eco, para quem os livros sempre falam de outros livros e qualquer história conta uma história já contada, além de dizer: "[...]todo texto devora outro, numa espécie de antropofagia infinita, em que o artista digere as linhas alheias para recompor seu próprio texto: eis aí uma das facetas da originalidade."

A professora sugere que os pedagogos trabalhem com textos gregos clássicos que tratem da mitologia, e com textos prosaicos ou poéticos da literatura brasileira (e outras) que façam intertextualidade com esses primeiros. Tal método estaria estabelecendo uma maior aproximação da literatura nacional e os temas que ela aborda, como também aguçando a leitura dos alunos para observarem casos em que o poeta cita outros. Kênia encerra seu ensaio citando o livro Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire, em que ele diz que "o educador é aquele profissional que desencadeia o exercício da curiosidade, da intuição e da imaginação em seus educandos." O professor cumpriria seu papel ao destacar a curiosidade no estudante, que seria capaz de conjecturar, comparar, e provocar, e essas inquietações iriam ser a base para a formação de seu espírito crítico, que também pesquisa e devota a leitura, numa forma de usá-la como ferramenta auxiliadora de segurança, competência e generosidade em seu caminho acadêmico e profissional posterior ao universitário.

Cultura: língua e atividade
Profissionais envolvidos com filosofia, história, letras, teatro e religião são frequentemente solicitados a conhecerem a língua grega uma vez que esse conhecimento possibilita a leitura dos textos de referência na forma original. Conhecer a língua grega implica ter a possibilidade de ler os mitos gregos com a riqueza de detalhes em que foram originalmente escritos. Seguindo esse pensamento, profissionais envolvidos com psicologia e psicanálise, ou com a sociologia, se beneficiariam na atividade da leitura original, uma vez que Sigmund Freud abriu uma série de estudos acerca do mito de Édipo, enquanto que Marx se debruçou sobre Prometeu. O domínio do grego clássico propicia uma vantagem prática na elaboração de textos em língua portuguesa, uma vez que esta tenha em sua estrutura palavras derivadas de equivalentes gregos, e o aprendizado de sua etimologia auxiliaria na deducação e dissecação de muitos significados de palavras e expressões em outras línguas. Através do domínio de sua linguagem, a cultura grega se aproxima de tal forma que é possível desvendar as origens de muitas características da própria origem de quem a estuda, além do estudioso ser capaz de fazer contrastes necessários entre as duas, como também investigar sua visão e sua ação no mundo, uma vez que a cultura e a língua andam juntas.

Por meio de todo esse aspecto cultural e línguistico, os mitos aparecem como sendo uma alternativa ou um caminho de conhecimento do mundo e dos seres humanos, talvez um modo de conhecer as questões fundamentais da existência humana, como veremos na próxima subseção.

Preservação e humanismo
Através dos mitos, e de outros aspectos de sua cultura, aos gregos antigos são creditadas muitas contribuições ao mundo Ocidental de hoje, dentre as quais:

• o desenvolvimento harmonioso do corpo e da mente humana;
• a cidade autônoma;
• a concepção da arte;
• a especulação filosófica.

Prometeu Carregando Fogo, por Jan Cossiers: preservado pelo século XVII, o mito de Prometeu é considerado humanista a partir do momento que ele rouba fogo divino e compartilha com os humanos, numa tentativa comum de tornar-se o dono do mundo.


A mitologia grega foi retomada e revista nas artes e nos campos intelectuais dos séculos posteriores àqueles em que tinha se originado, e a preservação de seus mitos contribuiu fundamentalmente na compreensão do ser humano enquanto figura do humanismo. Em Linguagem e Mito, o filósofo Ernst Cassirer afirma que "[...]a mitologia irrompeu com mais força nos tempos mais antigos da história do pensamento humano, mas nunca desapareceu por inteiro". Sendo assim, os mitos gregos influíram, indiscutivelmente, na filosofia, na parapsicologia, e nas consciências educacionais, ecológicas e sobre nós mesmos. Na psicologia, especificamente, os simbolismos da mitologia grega representam um papel fundamental: os psicólogos associam a borboleta a uma estreita relação entre a mente do homem e a sua natureza espiritual, bem como a transformação, alma, libertação, sorte, sensualidade, e psiquê (cuja origem vem do grego psyché). Muito antes, contudo, os gregos representavam a alma humana como uma borboleta, como meio de dar-lhe o significado simbólico de transformação, e da passagem da vida corpórea para a vida espiritual. Portanto, muitos dos conceitos atuais se apoiaram em heranças que a mitologia da Grécia nos legou. Para Mircea Eliade, "os mitos gregos, efetivamente, narram não apenas a origem do Mundo, dos animais, das plantas e do homem, mas também de todos os acontecimentos primordiais em conseqüência dos quais o homem se converteu no que é hoje um ser mortal, sexuado, organizado emsociedade, obrigado a trabalhar para viver, e trabalhando de acordo com determinadas regras."

Maria Lucia Gili Massi, chefe da área de desenvolvimento de recursos humanos, apontou numa entrevista de maio de 2005, que os "mitos ajudam a entender relações humanas." Para o professor de Literatura e História da Arte Fábio Brazil, conhecer os mitos, "sejam eles polinésios, tupinambás, maias, sumérios ou gregos não é o estudo de um fenômeno local e temporal, é o estudo e conhecimento da resposta simbólica do homem diante da natureza interna e externa à sua psique [...]", e reforça que os mitos gregos "[são] para nós um ato de autoconhecimento." Segundo Brazil, através dessa convenção olhar o mito pela face da religião fará com que olhemos também seus desdobramentos na história e na arte; se olharmos o mito pela face da arte, olharemos, inevitavelmente, seus desdobramentos na religião e na história e, por último, se o olharmos através da história, inevitavelmente seremos obrigados a olhá-lo também na arte e na religião. Para o francês Lévi-Strauss, fundador da antropologia estruturalista, as narrativas míticas, com seu poder de fascinar por meio de heróis audaciosos, ainda são fontes de vigor, resistência, e de referência para os ocidentais. No livro O Cru e o Cozido (2004), Strauss afirma que os mitos gregos são vantajosos por serem capazes de configurarem-se em "analogiasuniversais que, independentes da língua materna de cada um, podem ser familiares a todos nós."

O Nascimento de Vênus, de Botticelli (c. 1485–1486, têmpera sobre tela, Uffizi, Florença) — é uma Venus Pudica revivida para um novo ponto de vista da antiguidade pagã: muitos a compreendem como o resumo do espírito renascentista.


Influência na arte ocidental

Europa e América do Norte

A ampla adoção do Cristianismo no Ocidente não freou a popularidade dos mitos greco-romanos. Com o redescobrimento da antiguidade clássico no Renascimento, a poesia de Ovídio se converteu em uma influência importante para a imaginação dos poetas, dramaturgos, músicos e artistas ocidentais. Desde os primeiros anos do Renascimento, personalidades como Leonardo da Vinci, Michelângelo e Rafael retrataram os temas pagãs da mitologia grega adicionando temas cristianos mais convencionais. Mediante o latim e as obras de Ovídio, os mitos gregos influenciaram poetas medievais e renascentistas como Petrarca, Boccaccio e Dante, na Itália.

No Norte da Europa, a mitologia grega nunca alcançou a mesma importância nas artes visuais, mas sua influência na literatura foi colossal. Os mitos gregos produziram efeitos na imaginação inglesa de nomes como Chaucer e John Milton e seguiu em destaque de Shakespeare à Robert Bridges, no século XX. Racine da França e Goethe da Alemanha reviveram os dramas do teatro grego antigo, re-interpretando os mitos mais antigos. Embora o Iluminismo tenha estendido por toda a Europa uma reação contra os mitos gregos, estes continuaram sendo uma importante fonte de material para os dramaturgos, incluindo os autores de libretos de muitas óperas, como Händel e Mozart. Em finais do século XVIII, o Romantismo proporcionou um aumento no entusiasmo da cultura grega, incluindo a mitologia. Na Grã-Bretanha, novas traduções em cima das tragédias gregas e das obras de Homero inspiraram poetas (como Alfred Tennyson, Keats, Byron e Shelley) e pintores contemporâneos (como Lord Leighton e Lawrence Alma-Tadema). Em épocas mais recentes, os temas clássicos foram re-interpretados pelos dramaturgos Jean Anouilh, Jean Cocteau e Jean Giraudoux na França, Eugene O'Neill nos Estados Unidos e T.S. Eliot na Grã-Bretanha, e por novelistas como James Joyce e André Gide.

Retrato do Saci-pererê (2007), de J. Marconi representa um dos personagens mais famosos do folclore brasileiro: a cultura lusófona se apropriou dos textos mitológicos clássicos para focar associações condizentes com sua época e sociedade.


Lusofonia
A mitologia grega foi utilizada pelos lusófonos de forma expressiva e ampla, sendo aproveitada em campos como a música, a literatura e notavelmente o teatro, refletindo as características de seus mitos com os aspectos sociais de seu próprio tempo. Inspirado pelas Metamorfoses de Ovídio, Cruz e Silva produziu doze metamorfoses, inteiramente influenciado pelo mito grego.[181] Na América do Sul, o polímata Monteiro Lobato – admirador do povo e da cultura grega antiga – explorou a tradição da mitologia grega cumprindo seus projetos ligados a um público infanto-juvenil (dessa forma, a obra de Lobato foi norteada através de sua compreensão de que o mito grego era o alimento do espírito, algo que ele especifica no mito nacional do Saci).

Na poesia, destacam-se: Prosopoéia, de Bento Teixeira (poeta fascinado por Camões),[150] cuja estrofe XV faz referência à Proteu; Marília de Dirceu, escrito por Tomás Antônio Gonzaga no século XVIII, época em que o Arcadismo retomava o costume de citar textos da Grécia clássica, onde Gonzaga diz, "[...] O terno corpo despido/ E de Amor, ou de Cupido..."; Vozes DÁfrica, poema do baiano Castro Alves, em que ele cita Prometeu, incluindo hipérboles e comparações ao seu estilo romântico; o poema Helena, de Luiz Delfino, onde há alusões à Helena de Tróia, Paros e à Grécia antiga; Augusto dos Anjos, adepto do Simbolismo e com seu pessimismo típico, evoca a figura da Quimera no poema Versos Íntimos, onde há uma espécie de angústia perante o século novo e a ameaça da Primeira Guerra Mundial; o poema do Modernismo Bacanal, de Manuel Bandeira, onde Bandeira cita o nascimento do vinho e do teatro, com a figura de Dionísio, além de saudar: "Evoé Baco!", e — finalmente — Carlos Drummond de Andrade com o poema Rapto, onde o evoca a cena bizarra de Ganimedes sendo raptado pelo Deus Júpiter na porta de uma boate carioca.

Vinicius de Moraes escreveu Orfeu da Conceição originalmente em 1942, reescreveu seu texto em 1955, e a peça só foi montada em 1956 no Rio de Janeiro. A peça baseia-se no mito de Orfeu, que descia até Hades com Eurídice cantando docemente para que os mortos deixassem os dois passarem. Aproveitando os dotes musicais que os gregos antigos atribuíam a Orfeu, cantor e instrumentista da lira, Moraes fez de seu Orfeu um condutor de bonde e sambista que mora num morro do Rio de Janeiro. A obra de Vinicius, que é vista como uma tentativa de unir o drama com a poesia lírica, rendeu o álbum musical Orfeu da Conceição com as músicas da peça, uma adaptação ítalo-franco-brasileira famosa e premiada para o cinema intitulada Orfeu Negro, sob a direção de Marcel Camus, e também um de seus grandes sucessos com Tom Jobim: a canção "Se Todos Fossem Iguais a Você". Aliás, a peça marcou o início da amizade e da produção artística dos dois, sendo esse acontecimento, para Vinicius, o ponto principal dos resultados obtidos por ele em sua composição da obra.

Oduvaldo Viana Filho adaptou para a televisão brasileira o texto de Medéia, do grego Eurípedes, e, a partir dessa produção, Chico Buarque de Holanda e Paulo Pontes recuperaram o mito de Medéia ao escreverem um musical intitulado Gota d'água (1975), retratando o abandono que Joana, a personagem principal, sofre pelo marido, e as consequências trágicas que a levam a assassinar os próprios filhos numa favela do Rio de Janeiro, à semelhança de Medéia, que os assassinou após ser deixada por Jasão. Ambientada numa área urbana do Rio de Janeiro, a tragédia incorporava em seu texto mais de quatro mil versos, e sua primeira encenação teve Bibi Ferreira no papel principal. Gota d'água, de Buarque e Pontes, é vista como um drama que tenta focalizar a realidade brasileira da década de 70 e sua desigualdade social, a resistência de sua democracia durante sua ditadura militar, e sua política autoritarista, bem como os temas mais universais como a traição, moralidade e o amor (presentes no original grego).

José Saramago, em território português, publicou O Homem Duplicado em 2002, revestindo o mito de Anfitrião a um estilo pós-morderno ao narrar as consequências que o personagem Tertuliano vem a sofrer por ter perdido sua individualidade após se envolver com uma cultura alienante e massificadora. Através desse enredo, Saramago propõe uma reflexão sobre política e cidadania e estabelece uma intertextualidade moderna e criativa da mitologia grega.

Bibliografia Literária
Trata-se da bibliografia literária citada no corpo do presente artigo:
APOLODORO. Biblioteca Mitológica. Trad. J.G. Moreno. Madrid: Alianza, 1993.
APOLÔNIO DE RODES, Argonáuticas, Livro I
EURÍPIDES. Hipólito. Trad. B.S. Oliveira. Coimbra: INIC, 1979.
HESÍODO. Os Trabalhos e os Dias. Trad. M.C.N. Lafer. São Paulo: Iluminuras, 1990.
HESÍODO. Teogonia. A origem dos deuses. Trad. J.A.A. Torrano. São Paulo: Iluminuras, 1991.
HOMERO. Ilíada. Trad. E. Lassèrre (versão portuguesa de O.M. Cajado). São Paulo: Círculo do Livro, 1983.
HOMERO. Odisséia. Trad. M. Dufour (versão portuguesa de A.P. Carvalho). São Paulo: Abril, 1978.
Ovídio, Metamorfoses. Ed. Cotovia. (original em latim; baco e os piratas tirrenos; Livro I em português)
ALVES, Castro. Obras completas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.
ANDRADE, Carlos Durmmond de. Poesia e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1988.
ANJOS, Augusto dos. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1980.
BANDEIRA, Manuel. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986

Principal (em português, inglês e espanhol)
Bibliografia principal acerca de estudos, ensaios e concepções sobre mitologia grega, usada nas notas de rodapé da seção "Referências":
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Adicional
Bibliografia adicional acerca da Grécia antiga e sua cultura, como também de seus mitos:
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PRIETO, M.H.U. Dicionário de Literatura Grega. Lisboa: Verbo, 2001.

02/04/2009

HAMLET DE WILLIAM SHAKESPEARE


Hamlet é uma tragédia de William Shakespeare, escrita entre 1599 e 1601. A peça, passada na Dinamarca, reconta a história de como o Príncipe Hamlet tenta vingar a morte de seu pai Hamlet, o rei, executando seu tio Cláudio, que o envenenou e em seguida tomou o trono casando-se com a mãe de Hamlet. A peça traça um mapa do curso de vida na loucura real e na loucura fingida — do sofrimento opressivo à raiva fervorosa — e explora temas como a traição, vingança, incesto, corrupção e moralidade.

Apesar da enorme investigação que se faz acerca do texto, o ano exato em que Shakespeare escreveu-o permanece em debate. Três primeiras versões da peça sobrevivem aos nossos dias: essas são conhecidas como o Primeiro Quarto (Q1), o Segundo Quarto (Q2) e o First Folio (F1).[a] Cada uma dessas possui linhas ou mesmo cenas que estão ausentes nas outras. Acredita-se que Shakespeare escreveu Hamlet baseado na lenda de Amleto, preservada no século XIII pelo cronista Saxo Grammaticus em seu Gesta Danorum e, mais tarde, retomada por François de Belleforest no século XVI, e numa suposta peça do teatro isabelino conhecida hoje como Ur-Hamlet.

Dada a estrutura dramática e a profundidade de caracterização, Hamlet pode ser analisada, interpretada e debatida por diversas perspectivas. Por exemplo, os estudiosos têm se intrigado ao longo dos séculos sobre a hesitação de Hamlet em matar seu tio. Alguns encaram o ato como uma técnica de prolongar a ação do enredo, mas outros a vêem como o resultado da pressão exercida pelas complexas questões éticas e filosóficas que cercam o assassinato a sangue-frio, resultado de uma vingança calculada e um desejo frustrado. Mais recentemente, críticos psicanalísticos têm examinado a mente inconsciente de Hamlet, enquanto críticos feministas reavaliam e reabilitam o caráter de personagens como Ofélia e Gertrudes.

Hamlet é a peça mais longa de Shakespeare, e provavelmente a que mais trabalho lhe deu, mas encontrou nos tempos um espaço que a consagrou como uma da mais poderosas e influentes tragédias em língua inglesa: durante o tempo de vida de Shakespeare, a peça estava entre uma das mais populares da Inglaterra e ainda figura entre os textos mais realizados do mundo, no topo, inclusive, da lista da Royal Shakespeare Company desde 1879. Escrita para o Lord Chamberlain's Men, calcula-se que sobre Hamlet já se escreveram cerca de 80.000 volumes, muitos deles certamente são obras de grandes nomes que foram influenciados pela tragédia shakesperiana, como Machado e Goethe e Dickens e Joyce, além de ser considerada por muitos críticos e artistas de todo o planeta como uma obra rica, aberta, universal e muitas vezes perfeita.

Sinopse

O protagonista de Hamlet é o Príncipe Hamlet de Dinamarca, filho do recentemente morto Rei Hamlet e sobrinho do Rei Cláudio, irmão e sucessor de seu pai. Após a morte do Rei Hamlet, Cláudio casa-se apressadamente com a então viúva Gertrudes, mãe do príncipe. Num plano de fundo, a Dinamarca está em disputa com a vizinha Noruega, e existe a expectativa de uma suposta invasão liderada pelo príncipe norueguês Fórtinbras.

Horácio, Hamlet, e o Fantasma (Artista: Henry Fuseli 1798)

A peça abre numa noite fria do Castelo de Elsinore, o Castelo Roial Dinamarquês. Os sentinelas tentam convencer Horácio, amigo do Príncipe Hamlet, que eles têm visto o fantasma do rei morto, quando ele aparece novamente. Depois do encontro de Horácio com o Fantasma, Hamlet resolve vê-lo com seus próprios olhos. À noite, o Fantasma aparece para Hamlet. O espectro diz a Hamlet que é o espírito de seu pai morto, e revela que Cláudio o matou com um frasco venenoso, despejando o líquido em seus ouvidos. O Fantasma pede que Hamlet vingue sua morte; Hamlet concorda, com pena do espectro, decidindo fingir-se de louco para não levantar suspeitas. Ele, contudo, duvida da personalidade do fantasma. Ocupados com os assuntos do estado, Cláudio e Gertrudes tentam evitar a invasão de Fórtinbras. Um tanto preocupados com o comportamento solitário e errático de Hamlet, acrescido de seu luto profundo diante da morte do pai, eles convidam dois amigos do príncipe - Rosencrantz e Guildenstern - para descobrirem a causa da mudança de comportamento de Hamlet. Hamlet recebe os companheiros calorosamente, todavia logo discerne que eles estão contra ele.

Polônio é o conselheiro-chefe de Cláudio; seu filho, Lartes, está indo de viagem à França, enquanto sua irmã, Ofélia é cortejada por Hamlet. Nem Polônio e nem Lartes acreditam que Hamlet nutra desejos sinceros com Ofélia, e ambos alertam para ela esquecê-lo. Pouco depois, Ofélia fica alarmada pelo comportamento estranho de Hamlet e confessa ao pai que o príncipe irá ter com ela num dos aposentos do castelo, mas olha fixamente para ela e nada se diz. Polônio assume que o "êxtase do amor" é o responsável pela loucura de Hamlet, e informa isso a Cláudio e Gertrude. Mais tarde, Hamlet discute com Ofélia e insiste para que ela vá "a um convento".

O desmascaramento de Cláudio é atingido através de um recurso singular: o teatro no teatro. (Artista: Maclise)


Hamlet continua sem saber se o espírito lhe contou a verdade, mas a chegada de uma trupe artística em Elsinore apresenta-se como uma solução para a dúvida. Ele vai montar uma peça, encenando o assassinato do pai - assim como o espectro lhe relatou - e determinar, com a ajuda de Horácio, a culpa ou a inocência de Cláudio estudando sua reação. Toda a corte é convocada para assistir o espetáculo; Hamlet fornece comentários durante toda a encenação. Quando a cena do assassinato é realizada, Cláudio, "muito pálido, ergue-se cambaleante", ato que Hamlet interpreta como prova de sua culpabilidade. O rei, temendo por sua vida, bane Hamlet à Inglaterra em um pretexto, vigiado por Rosencrantz e Guildenstern, com uma carta que manda o portador ser assassinado.

Gertrudes, "em grandíssima aflição de espírito", chama o filho em sua câmara e pede uma explicação sensata sobre a conduta que resultou no mal-estar do rei. Durante o caminho, Hamlet encontra-se com Cláudio rezando, distraído. Hamlet hesita em matá-lo, pois raciocina que enviaria o rei ao céu, por ele estar orando. No quarto da rainha, têm um debate fervoroso. Polônio, que espia tudo atrás da tapeçaria, faz um barulho; Hamlet, acreditando ser Cláudio, dá uma estocada através do arrás e descobre Polônio morto. O Fantasma aparece, dizendo que Hamlet deve acolher sua mãe suavemente, embora volte a pedir vingança.

Hamlet e Horácio com os dois rústicos.[9] (Artista: Eugène Delacroix).


Demente em luto pela morte do pai, Ofélia caminha por Elsinore cantando libertinagens. Lartes retorna da França enfurecido pela morte do pai e melancólico pela loucura da irmã. Cláudio convence Laertes que Hamlet é o único responsável pelo acontecido; e é então que chega a notícia de que o príncipe voltou à Dinamarca porque seu barco foi atacado por piratas no caminho da Inglaterra. Rapidamente Cláudio propõe a Lartes uma luta de espadas entre ele e Hamlet onde o primeiro dos dois utilizará uma espada envenenada, sendo que na ocasião será oferecido ao príncipe uma taça de vinho com veneno, se o "plano A" falhar. Até que Gertrudes interrompe a conversa dizendo que Ofélia afogou-se.

Vemos depois dois rústicos discutindo o aparente suicídio de Ofélia num cemitério, preparando-se para cavar sua sepultura. Hamlet aparece com Horácio e se aproxima de um dos rústicos, que depois segura um crânio que conta ser de Yorick, um bobo da corte que Hamlet conheceu na infância. Quando o cortejo fúnebre de Ofélia aparece liderado por Laertes e Hamlet descobre que o rústico cavava a sepultura da moça, ele e Laertes se atracam dizendo amar Ofélia, mas o conflito é separado pelos demais.

Gustave Moreau retrata o momento em que Hamlet vinga-se de seu pai envenenando o tio e pondo fim à peça.


No regresso a Elsinore, Hamlet conta a Horácio como escapou do destino mortal que foi entregue a Rosencrantz e Guildenstern. Interrompendo a conversa, Orisco aparece para convidar o príncipe a um combate de armas brancas proposto pelo rei. Quando o exército de Fórtinbras cerca Elsinore, a competição começa e ambos os cavalheiros tomam posição. O rei, como planejou anteriormente, separa a taça envenenada e deposita dentro do líquido uma pérola, oferecendo-a a Hamlet, que deixa a bebida para depois. Hamlet vence o primeiro e o segundo assalto, e a rainha toma a taça envenenada, "bebendo a sua sorte".

Enquanto a mãe enxuga a face do filho, Laertes decide ferir-lhe com a arma envenenada. Hamlet, usando sua força, atraca-se com o inimigo e, no corpo-a-corpo, trocam suas espadas. Ele penetra profundamente em Lartes o item envenenado. A rainha confessa que morre por conta do veneno, enquanto Lartes revela que o rei é o culpado de toda a infâmia. A rainha morre envenenada.

Hamlet fere o rei com a espada envenenada, mas ele diz estar apenas machucado. Furioso, o sobrinho obriga Cláudio a beber a taça com veneno à força, e o mata, vingando a morta de seu pai. Laertes, morrendo aos poucos, despede-se de Hamlet, ambos perdoam-se. Quando é a vez de Hamlet, Horácio diz que será fiel ao príncipe morrendo junto com ele, mas o primeiro não permite, tombando para trás e dizendo que a eleição cairá certamente em Fórtinbras. Hamlet morre, dizendo "O resto é silêncio." Fórtinbras invade o castelo com seu exército e ordena que "quatro capitães conduzam Hamlet como um soldado, para o catafalco". Os soldados carregam o corpo do príncipe; soa a marcha fúnebre, e depois uma salva de canhões.

Facsimile de Gesta Danorum, de Saxo Grammaticus, que contém a lenda de Amleto.


Fontes textuais

São identificadas muitas fontes antigas para o texto de Hamlet. A primeira trata-se de Hrólfs saga kraka, uma saga legendária da Escandinávia. Nela, o rei assassinado tem dois filhos—Hroar e Helgi—que passam a maior parte da história disfarçados sob nomes falsos, ao invés de fingirem estarem numa condição de loucura—e é nisso que o texto difere-se do Hamlet de Shakespeare, onde o príncipe fingi-se louco. O segundo é a lenda romana de Brutus, registrada em dois trabalhos latinos diferentes. O herói, Lúcio ("iluminado, luz"), muda seu nome para Brutus ("estúpido", "bravo"), mudando também sua personalidade, passando a ser "idiota" para evitar o destino de seu pai e irmãos, acabando por degolar o assassino de sua família, o Rei Tarquinius. Torfaeus, um estudioso nórdico do século XVII, comparou o herói Amlodi e o herói espanhol Príncipe Ambales (da Saga de Ambales) ao Hamlet de Shakespeare. As semelhanças entre os textos, pelo menos, são bastante óbvias: a falsa loucura do príncipe, seu abate acidental diante do conselheiro do rei no quarto da mãe, e o eventual assassinato do tio.

A maioria dos primeiros elementos legendários foram entrelaçados no Vita Amlethi ("A Vida de Amleto") que data do século XIII, de Saxo Grammaticus, fazendo parte do Gesta Danorum. Escrito em latim, o texto reflete o conceito clássico da Roma acerca da virtude e do heroísmo, e foi amplamente estudado na época de Shakespeare. Os principais paralelos no enredo são a loucura fingida do príncipe, o casamento apressado de sua mãe com o usurpador, o assassinato que o príncipe comete em um espião escondido, e a sorte que ele adquire ao se esquivar da morte e fazer com que outros dois morram em seu lugar. Uma versão fiel e moderada da história de Saxo foi traduzida na França em 1570 por François de Belleforest, em seu Histoires Tragiques. Belleforest, em seu trabalho de tradução, embelezou a obra de Saxo, além de dobrar o tamanho do texto, e introduzir um elemento que, com certeza, Shakespeare usaria posteriormente: a melancolia do herói.

Folha de rosto da peça de Thomas Kyd (que talvez tenha escrito Ur-Hamlet também): esta popular tragédia talvez tenha influenciado Hamlet.


Contudo, a teoria popular diz que a principal fonte do dramaturgo inglês foi uma peça - hoje perdida - conhecida como Ur-Hamlet. Provavelmente escrita por Thomas Kyd, Ur-Hamlet foi encenada pela primeira vez em 1589 e a primeira versão conhecida da história incorpora um personagem-fantasma. A companhia de Shakespeare, a Chamberlain's Men, talvez tenha adquirido a peça e encenado uma versão na mesma época, de modo que Shakespeare, que começou sua carreira literária revisando e difundindo textos de outros autores, retrabalhou em cima do enredo. Embora não exista nenhuma cópia de Ur-Hamlet viva hoje, é impossível comparar seu estilo e linguagem com as obras conhecidas de qualquer autor. Consecutivamente, não há evidências de que Kyd a escreveu, tampouco evidências de que a obra não foi uma primeira versão da Hamlet do próprio Shakespeare. Essa recente idéia - que coloca Hamlet como mais recente do que a data geralmente aceita, com um longo período de desenvolvimento - tem atraído alguns suportes, conquanto outros estudiosos desmentem essa especulação.

Concluindo, os estudiosos não possuem domínio com qualquer confidência que prove que Shakespeare se inspirou em alguma coisa do enredo de Ur-Hamlet (afinal, não se sabem nem se o documento realmente existiu), ou do enredo de Belleforest ou Saxo, ou com qualquer outra fonte contemporânea dele. Não existem evidências claras de que Shakespeare construiu alguma referência direta com a versão de Saxo. Contudo, os elementos da versão de Belleforest aparecem na peça de Shakespeare, mas elas não estão presentes na história do Saxo. Se Shakespeare pegou esses elementos diretamente de Belleforest ou do resto de Ur-Hamlet, isto é incerto.

Muitos estudiosos rejeitam a idéia de que Hamlet tem alguma conexão com o único filho de Shakespeare, Hamnet Shakespeare, que morreu em 1596 com apenas onze anos de idade. Ao contrário disto, a sabedoria convencional prega que Hamlet tem uma óbvia conexão com a lenda, e que o nome Hamnet era bastante popular naquela época. No entanto, Stephen Greenblatt argumenta acerca da coincidência dos nomes, dizendo que a tristeza de Shakespeare perante a perda do filho talvez o tenha inspirado na criação da tragédia. Greenblatt reforça que o nome de Hamnet Sadler, o vizinho stratfordiano em que o nome Hamnet foi inspirado, tinha seu nome escrito às vezes como "Hamlet Sadler" e que, na delicada ortografia daquela época, os nomes eram constantemente permutáveis. O próprio Shakespeare escreveu o primeiro nome de Sadler como "Hamlett" em seu testamento.

Frontispício da edição de 1605 (Q2), de Hamlet


Data

"Qualquer data que se fizer de Hamlet deve ser provisória", advertiu Phillip Edwards, editor do New Cambridge. A estimativa da data mais recente analisa que Hamlet possui freqüentes alusões à Júlio César, que data de 1599. Em contrapartida, a data mais tardia é baseada na entrada da peça em 26 de julho de 1602 no Stationers' Register, indicando que Hamlet foi encenada pelo Lord Chamberlain Men.

Em 1598, Francis Meres publicou em seu Palladis Tamia um levantamento da literatura inglesa de Chaucer a sua época, dentro do qual doze peças de Shakespeare são citadas, mas Hamlet não está entre as peças, o que sugere que ela não havia sido escrita até então. Como o texto era muito popular, Bernard Lott, em New Swan, acredita ter sido "pouco provável que ele [Meres] tenha ignorado uma peça tão importante." A frase "filhotes de falcão" , no First Folio (F1) como "little eyases", talvez seja uma alusão a uma trupe de atores infantis que atuava na época de Shakespeare e, como a trupe tornou-se famosa em 1601, alguns acreditam que Hamlet pode ter sido produzida por essa data.

Um contemporâneo de Shakespeare, Gabriel Harvey, escreveu uma nota marginal em sua edição de 1598 das obras de Chaucer, edição muito utilizada por alguns estudiosos para datar Hamlet. A nota de Havery afirma que é "uma forma sensata" apreciar Hamlet, e implica que o Conde de Essex – executado em fevereiro de 1601 por uma rebelião – ainda estava vivo. Outros estudiosos consideram isso inconclusivo. Edwards, por exemplo, conclui que o "sentido da época da nota de Havery é tão confuso, que ela é pouco usada na tentativa de datar Hamlet." Isso ocorre porque a mesma nota faz referência a Spenser e Watson como se eles também estivessem vivos (dizendo "nossos métricos florescentes"); contudo, a nota menciona o "novo epigrama de John Owen", publicado somente em 1607.

Facsimile da primeira página de Hamlet, no First Folio publicado em 1623.


Textos

Três primeiras edições do texto sobreviveram aos nossos dias fazendo tentativas de estabelecer um único texto autêntico. Cada edição difere da outra em algum ponto:

Primeiro Quarto (Q1): Em 1603, foi publicado e impresso os chamados "maus" primeiros quartos. O Q1 contém um pouco mais da metade do texto depois do segundo quarto.
Segundo Quarto (Q2): Nicholas Ling publicou em 1604, e James Robert imprimiu. Algumas cópias datam de 1605, o que pode indicar uma segunda impressão; consecutivamente, o Q2 é datado de "1604/5". A Q2 é a maior edição, embora omita 85 linhas encontradas na F1 (muito provavelmente para não ofender Ana de Dinamarca, a rainha de Jaime I de Inglaterra).
First Folio (F1): Em 1623, William Jaggard e Edward Blount publicaram o First Folio, a primeira edição dos Trabalhos Completos de Shakespeare.
Os primeiros editores dos trabalhos de Shakespeare combinaram o material das duas primeiras fontes de Hamlet disponível naquele tempo, a Q2 e a F1. Cada texto contém algum elemento que o outro carece, com algumas pequenas diferenças na formulação: 200 linhas são praticamente idênticas nos dois. Os editores combinaram em criar um texto que refletisse e imaginasse o "ideal" do original de Shakespeare. A versão de Theobald tornou-se estandarte por um longo tempo, e seu "texto completo" continua a influenciar a prática editorial nos dias de hoje. Alguns estudiosos contemporâneos, contudo, desconsideram essa abordagem, considerando-a "um Hamlet autêntico num ideal irrealizado... existem textos dessa peça, mas nenhum texto." A publicação de 2006 por Arden Shakespeare dos diferentes textos de Hamlet em diferentes volumes é provavelmente a melhor prova dessa deslocação de foco e ênfase.

Rowe, em 1709, foi quem elaborou uma lista de personagens da peça pela primeira vez, quando os textos do Q1, do Q2 e do F1 não traziam nenhuma relação. Tradicionalmente, os editores de Shakespeare têm dividido o texto em cinco atos. Nenhum dos primeiros textos de Hamlet, contudo, foi organizado dessa forma, e a divisão da peça em atos e cenas deriva de um quarto de 1676. Os editores modernos geralmente seguem essa divisão, mas a consideram insatisfatória; por exemplo, quando Hamlet arrasta o corpo de Polônio fora do quarto de Getrudes, há uma interrupção, que alguns estudiosos consideram não muito feliz, pois quebra intempestivamente a ação. Dessa forma, dizem que a cena III.4 deveria continuar até o fim de IV.1

O solilóquio Ser ou não ser, no documento da edição Q1, de 1603.[b]


A descoberta do Q1 em 1823 — cuja existência havia sido bastante suspeita — causou grande interesse e entusiasmo, o que levanta muitas questões de interpretação e prática editorial. Os estudiosos logo notaram aparentes deficiências no Q1, que foram essenciais para o desenvolvimento do conceito de um "mau quarto". Apesar disso tudo, o Q1 possui valor: contém indicações de palco que revelam atuais práticas de encenação que o Q2 e o F1 não possuem; e também contém uma cena inteira (normalmente rotulada como 4,6) que não aparece em nenhuma parte do Q2 ou do F1; e isso se mostra bastante útil na sua comparação com edições posteriores.

O Q1 é consideravelmente menor que o Q2 ou o F1 e pode ser uma reconstrução memorial de como a peça foi encenada pela companhia de Shakespeare. Os estudiosos discordam entre si quando debatem se essa reconstrução não foi uma edição pirateada ou autorizada. Outra teoria, considerada pelo editor Kathleen Irace, sustenta a idéia de que o Q1 é uma versão que tem a intenção especial de produções de viagem. A idéia de que a Q1 não é crivada de erro, e sim uma versão eminentemente própria para o palco e para a fala dos atores, levou (desde 1881) a pelo menos 28 diferentes produções baseadas em seu texto.

Durante algum tempo, críticos teatrais, como também o público, encararam as personagens de Hamlet como misteriosas, obscuras e, até mesmo, místicas. (Artista:Edwin Abbey)


Análise crítica

Contexto histórico


Desde o início do século XVII, a peça era famosa por seus personagens fantasmas e pela vívida dramatização da melancolia e da insanidade, o que levou uma procissão de nobres da corte a ir assisti-la durante a Era Jacobina e a Era Carolina. Apesar de ter permanecido com uma audiência considerável, no final do século XVII os críticos da Restauração inglesa enxergavam Hamlet como uma peça primitiva e reprovaram seu estilo. Essa visão mudou radicalmente a partir do século XVIII, o século seguinte, quando os críticos começaram a considerar Hamlet um herói puro, um jovem de idéias brilhantes e um homem em circunstâncias adversas. Em meados do século XVIII, contudo, o advento da literatura gótica trouxe uma leitura psicológica e mística sobre Hamlet, recolocando a loucura e o fantasma da peça para a ribalta. Até os finais deste século os teatrólogos e profissionais envolvidos no teatro começaram a ver Hamlet como confuso e inconsistente. Até então, ele era ora louco, ora lúcido; ora um herói, ora um fracassado. Estes desenvolvimentos representaram uma mudança fundamental na crítica literária, que veio a se concentrar mais no personagem, em detrimento da trama. O século XIX trouxe o Romantismo e, com ele, críticos e dramaturgos que valorizavam Hamlet como um indivíduo infernal, conturbado, que reflete um conflito contemporâneo de lutas internas e interiores, num caráter aberto e amplo. Depois, os críticos se atentaram a focar na demora de Hamlet em matar seu tio como uma característica do personagem, ao invés de um elemento do enredo. Essa atenção ao caráter do personagem e sua luta interna continuou na entrada do século XX, quando a crítica abordou Hamlet sob vários ângulos, discutindo sua temática e interpretação (que serão apresentadas no próximo capítulo).

Um dos sub-enredos da obra é o relacionamento de Hamlet com Ofélia, aqui retratados por Dante Gabriel Rossetti, 1858.


Estrutura dramática

Em um período onde muitas peças eram apresentadas com duas horas de duração ou menos, o texto integral de Shakespeare possui 4.042 linhas, totalizando 29.551 palavras engendradas em cinto atos (é a peça mais longa de Shakespeare) — ou seja, leva-se mais de quatro horas para encená-la fielmente. Hamlet também contém um dos dispositivos mais favoritos de Shakespeare: o teatro no teatro. Dramaticamente, desde o início da obra (a cena de abertura do castelo imperial) existe um clima de tensão que irá tomar conta de todo o resto do enredo da peça. Logo após isso, essa atmosfera ainda misteriosa fica um tanto mais clara com o aparecimento do Fantasma do pai de Hamlet. De forma resumida, podemos dizer que Hamlet afastou-se da convenção dramática de sua época sob várias maneiras: primeiro, na época de Shakespeare, as peças eram usualmente baseadas no ensinamento da Poética de Aristóteles: "o drama precisa focar em sua ação, não em seu personagem." Em Hamlet, no entanto, Shakespeare reverte essa técnica, substituindo as ações pelos solilóquios como meio de explicar para o público os pensamentos e os motivos de Hamlet; Segundo (e ao contrário de outras peças shakesperianas, com exceção de Otelo): não existe nenhum sub-enredo forte, sendo que todos os enredos se entrelaçam diretamente para a veia principal do enredo mais importante, a tentativa de Hamlet vingar seu pai. No entanto, esses sub-enredos, embora não possuam uma presença visivelmente definida, são diversas vezes selecionados de forma simples pelos críticos: o antagonismo de Hamlet e seu tio Cláudio, seus conflitos com a mãe, sua paixão pela infeliz Ofélia, o relacionamento de Ofélia com o irmão Laertes e o de Laertes com o pai Polônio. Dentro desse caleidoscópio de sentimentos e embates psicológicos, a peça está cheia de irregularidades e descontinuidades em suas ações, principalmente no sub-enredo de antagonismo entre o príncipe e o atual rei: num dado momento, como na cena do coveiro, Hamlet parece estar resolvido a matar Cláudio, mas na próxima cena, contudo, quando Cláudio aparece, ele se encontra subitamente manso. Os estudiosos de Shakespeare ainda debatem se estes entrelaçamentos são enganos ou adiantamentos intencionais a acrescentar à temática da peça (confusão e dualidade). Certos estudiosos acreditam que tal estrutura dramática tenha sido o principal fator de sucesso mundial dessa peça shakesperiana que, segundo eles, fascina todo tipo de platéia (desde a que procura o teatro como mera diversão até a que busca formas de pensamento mais profundas).

Linguagem
Grande parte da linguagem da peça é lisonjeira: elaborada, com discurso espirituoso, como recomendado por Baldassare Castiglione em 1528 em seu guia cerimonial The Courtier. Esse trabalho, especificamente, aconselha os retentores reais a divertirem os seus senhores com uma linguagem inventiva. Orisco e Polônio, por exemplo, que são dois empregados, parecem respeitar essa injunção. O discurso de Cláudio é rico em figuras retóricas - como acontece também com Hamlet e, às vezes, com Ofélia - enquanto a linguagem de Horácio, dos Guardas e dos Rústicos é simples. O status alto de Cláudio é reforçado pelo uso da primeira pessoa do plural ("nós" ou "nos"), e com o uso da anáfora misturada com a metáfora para ressonar com os discursos políticos da Grécia antiga.

Quando Hamlet declara que a sua roupa escura é o espelho exterior do seu interior melancólico, ele demonstra uma forte habilidade retórica. (Artista: Eugène Delacroix, 1834).


Hamlet é o personagem da retórica mais qualificada: ele usa metáforas altamente desenvolvidas com esticomitias, e, em memoráveis palavras, implanta tanto a anáfora como o assíndeto: "morrer: dormir— / Dormir... talvez sonhar". Em contrapartida, quando a ocasião manda, ele é simples e preciso, quando explica sua emoção introspectiva para a mãe: "[...] Os trajes de costumeiros de solene preto / Rajadas de suspiros no forçado alento / [...] Porém eu tenho isto que sinto no interior, / E excede o aspecto, e os trajes e hábitos de dor." Outras vezes, contudo, Hamlet está fortemente dependente dos trocadilhos para expressar seus verdadeiros pensamentos e simultaneamente para camuflar-los. Suas observações a respeito de "convento" dirigidas para Ofélia são um exemplo de duplo sentido para a palavra conventilho, bordel. As primeiras palavras de Hamlet na peça também são trocadilhos; quando Cláudio se dirige a ele como "meu parente e meu filho...", Hamlet, à parte, responde: "Algo mais que parente, e menos do que filho". Desse trocadilho (no original como a little more than kin, and less than kind) pode-se entender, entre outras exegeses, que Hamlet considera Cláudio algo mais do que parente, "já que casastes com a minha mãe e, portanto, sois meu pai", mas "sou menos do que filho, porque esse casamento é incestuoso"; ou ainda: "porque não tenho sentimentos filiais para convosco".

Outro elemento retórico, um tanto raro, aparece em vários lugares na peça: o endiades. Exemplos podem ser encontrados nas falas de Ofélia no final da "cena do convento": "Do guerreiro, a esperança e flor do belo Estado, o espelho da elegância e o molde da etiqueta, o alvo das deferências, como decaiu!"; "E eu, entre as damas a mais triste e infortunada [...]". Muitos estudiosos têm achado curioso e estranho que Shakespeare, aparentemente de forma arbitrária, tenha usado essa forma retórica durante toda a peça. Uma das explicações é que Hamlet foi escrita na maturidade de Shakespeare, quando ele era adepto dos elementos retóricos como meios de se preencher os personagens e o enredo. O lingüista George T. Wright sugere que o endiades tinha sido utilizado por Shakespeare como meio de aumentar a sensação de dualidade e deslocamento da peça.

Os solilóquios de Hamlet também têm capturado a atenção dos estudiosos: Hamlet às vezes se interrompe, xingando-se, concordando ou discordando de si mesmo, e embelezando suas próprias palavras. Ele tem dificuldades em expressar-se diretamente em vez de ser abrupto com a orientação de seus pensamentos. Só no decorrer da peça, após sua experiência com os piratas,que Hamlet é capaz de se articular melhor e discursar mais livremente.

Temática e interpretação

"Cada posição crítica aponta para uma faceta de um todo e, juntas, possibilitam uma apreciação global. Não se pode analisar Hamlet a partir de um ponto de vista estritamente psicológico, ou político, ou ético, ou social, porque todos eles são válidos, as abordagens são múltiplas e os problemas contidos na peça são complexos e universais."
—Péricles Ramos[67]

O poeta e tradutor brasileiro Péricles Eugênio da Silva Ramos considerou a peça — em sua tradução de Hamlet — como "[uma] obra rica, [que] permite as mais diversas interpretações e as apreciações mais extremadas." De fato, desde a realização de Hamlet, há mais de quatro séculos, Shakespeare conseguiu produzir uma obra que abriu diversas discussões em torno de seu enredo e de suas personagens, onde alguns a consideram como indestrutível e, além disso, fundamental para a compreensão do ser humano. Hamlet adequou-se em ramos e áreas humanas com abrangência inédita para uma obra teatral, sendo estudada sob as óticas da ideologia, simbologia, hermenêutica, sociologia, etc.

O prestígio inicial de Hamlet deu-se no século XIX com o advindo do Romantismo — período que presenciou a origem de estudos mais profundos e mais sérios acerca das obras de Shakespeare — e a popularidade da peça lhe ajudou a entrar no século XX (que lhe doou as compreensões mais abrangentes e as mais tradicionais) com ainda mais vigor, permitindo a ela dar novas roupagens e também contribuições de novos elementos aos variados mecanismos que o século passado se preocupou em criar ou em desenvolver. Portanto, não é de se espantar que a peça adquiriu um grande histórico no que diz respeito a suas interpretações, que foram feitas por grandes nomes da literatura, da ciência e da filosofia, abrangendo desde a religião até a psicanálise, como mostraremos a seguir:

A misteriosa morte de Ofélia (Detalhe de Millais, 1852): abre-se um tema religioso quando os coveiros discutem se ela merece enterro cristão por ter se suicidado.


Religião

Escrita numa época de turbulência religiosa, e no despertar da Reforma Inglesa, Hamlet é alternadamente Católica (ou supersticiosamente medieval) e Protestante (ou conscientemente moderna): o fantasma do Rei Hamlet diz que está no purgatório e morrendo sem últimos sacramentos. Isso e a cerimônia fúnebre de Ofélia, que é caracteristicamente católica, perfazem a maior parte da conexão do Catolicismo com o enredo da peça. Certos estudiosos têm observado que as tragédias de vingança surgem em países tradicionalmente católicos, como a Espanha e a Itália; e, no entanto, isso é um paradoxo, visto que a doutrina católica prega o dever para com a família e com Deus. O dilema de Hamlet, então, é se vingar de seu pai matando Cláudio, ou deixar a vingança nas mãos de Deus, como exige sua religião.

Grande parte do Protestantismo de Hamlet resulta provavelmente em sua localização na Dinamarca – que era desde o tempo de Shakespeare predominantemente um país protestante, embora não esteja claro se a localização ficcional da peça nesse país esteja realmente destinada a esse fato. A obra faz menção a Wittenberg, onde Hamlet, Horácio e Rosencrantz e Guildenstern frequentaram universidades, e em que Martinho Lutero pregou pela primeira vez suas 95 teses. Quando Hamlet diz que "há uma iniludível providência na queda de um pardal." ele reflete a idéia protestante de que a vontade de Deus – Divina Providência – controla até mesmo o menor evento. Diferentemente, no Q1 a mesma passagem aparece da seguinte forma: "Há uma providência predestinada na queda de um pardal.", o que sugere uma ligação ainda mais forte com o protestante João Calvino, através da doutrina da predestinação. Certos estudiosos estimam que essa passagem tenha sido censurada, pois só aparece em Q1.

As idéias filosóficas em Hamlet talvez possuam conexões com alguns conceitos do francês Montaigne, contemporâneo de Shakespeare.


Filosofia

Hamlet é frequentemente encarado como um personagem filosófico, que expôs idéias agora conhecidas como relativistas, existencialistas e céticas. Por exemplo, ele expressa uma idéia relativista quando se dirige para Rosencrantz e diz: "nada é bom ou mau, a não ser por força do pensamento". A idéia de que nada é mau, exceto na mente do indivíduo, encontra suas raízes nos gregos sofistas, crentes de que, uma vez que nada pode ser percebido exceto através dos sentidos – e uma vez que todas as pessoas sentem e, portanto, percebem as coisas de maneira diferentemente entre si – não há verdade absoluta, apenas a verdade relativa sobre as coisas. O exemplo mais claro do existencialismo, contudo, só está por vir, no célebre e famoso monólogo da tragédia:

"Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre
Em nosso espírito sofrer pedras e setas
Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja,
Ou insurgir-nos contra um mar de provocações
E em luta pôr-lhes fim? Morrer.. dormir: não mais.
Dizer que rematamos com um sono a angústia
E as mil pelejas naturais-herança do homem:
Morrer para dormir... é uma consumação
Que bem merece e desejamos com fervor [...]"

Os críticos acreditam que Hamlet usa "ser" para aludir à vida e à ação, e "não ser" aludindo para a morte e a inércia. Com a palavra "consumação", os críticos acreditam que Shakespeare cita o francês Michel de Montaigne: If it be a consummation of ones being, it is also an amendemente and entrance into a long and quiet life. Wee finge nothing so sweete in life, as a quiet rest and gentle sleep, and without dreams. Sendo consummation, no original, anéantissement, isto é, aniquilação, o verso shakesperiano faz alusão a conclusão, a um final que é um atingimento, uma coroação. Na língua portuguesa, consumar também cumpre o sentido de "tudo está consumado" (concluído) ou "consumou-se o intento" (realizou-se, cumpriu-se).

Os estudiosos acreditam que Hamlet reflete o ceticismo contemporâneo prevalecido no Humanismo Renascentista. Anteriormente à época de Shakespeare, os humanistas argumentaram que o homem era a maior criação de Deus, feito à imagem divina, e capaz de escolher sua própria natureza, mas essa tese foi contestada notavelmente em Ensaios (1950), de Montaigne. A frase "Que obra de arte é um homem", que vem de Hamlet, ecoa muitas idéias de Montaigne, mas os estudiosos discordam se Shakespeare realmente citou o ensaísta da França ou se isso não passa de coincidência, onde ambos reagiram semelhantemente diante do espírito da época.

Desenho de Polônio num vitral: o primeiro-ministro de Hamlet poderia ser uma sátira a William Cecil.


Politica

No início do século XVII, a prática da sátira política ficou totalmente desencorajada pelo fato de os dramaturgos correrem o risco de serem punidos por trabalhos "ofensivos". Em 1597, por exemplo, Ben Jonson foi preso por sua colaboração na obra A Ilha de Cães. Thomas Middleton, em 1624, ficou encarcerado enquanto sua peça Um Jogo de Xadrez foi banida após nove encenações.

Numerosos estudiosos crêem que o impulso divertido de Polônio em Hamlet vem seguramente do falecido William Cecil (Lorde Burghley) — tesoureiro e conselheiro-chefe de Isabel I de Inglaterra — onde eles encontram inúmeros paralelos. O primeiro é que Polônio é um estadista ancião num cargo semelhante ao do Lord Bourghley. Ainda nesse raciocínio, os diversos conselhos que Polônio entrega a seu filho Lartes são muito parecidos ao do Lord Burghley para seu filho. Os estudiosos também chamam a atenção para a verbosidade entediante de Polônio, que dizem ser semelhante a de Burghley. Além disso, "Corambis" (o nome de Polônio em Q1) ressoa com o latim "duplo coração", que talvez satirize o mote do Lorde, que era Cor unum, via una de Cecil ("Um coração, um caminho"). Finalmente, a relação da filha de Polônio, Ofélia, com o nobre Hamlet, pode ser comparada com a relação da filha de Lord Burghley, Anne Cecil, com Eduardo de Vero. Esses argumentos também oferecem um suporte para o debate da autoria de William Shakespeare, e principalmente para a visão oxfordiana. No entanto, Shakespeare esquivou-se da censura e, longe de ser reprimido, tudo indica que Hamlet recebeu um Imprimatur na Inglaterra, bem como um brasão de armas.

Psicanálise
Desde o surgimento da psicanálise em finais do século XIX, Hamlet tem sido a fonte de tais estudos, e experimentou análises – realizadas por nomes como Sigmund Freud, Ernest Jones e também Jacques Lacan – que influenciaram produções teatrais posteriores.

Freud sugeriu que um inconsciente complexo de Édipo causou a hesitação de Hamlet a matar seu tio. (Artista: Delacroix, 1844).


Em seu A Interpretação dos Sonhos (1899), Freud utiliza uma variedade de obras literárias para entender e explicar o comportamento das ações humanas. Talvez a mais conhecida seja a tragédia Édipo Rei, de Sófocles, onde Freud encontra a essência do que viria a chamar de complexo de Édipo, complexo que parece estar intimamente presente no príncipe Hamlet. Nos estudos de Freud, Hamlet complementou o que faltava em Édipo Rei, ou seja, lhe entregou aquela intenção de explicar um desejo que não coloca o sujeito necessariamente na ação, mas, ao contrário, o impede. Assim, embora Freud tenha dado o nome de Complexo de Édipo, talvez como um modo de ser fiel àquilo que mais precocemente foi concebido na história cultural da humanidade, é Hamlet que se encontra mais consistente em suas idéias.[c] Após essas análises, Sigmund conclui que "Hamlet encontra-se impossibilitado de realizar a vingança da morte do pai, tendo em vista que o assassinato deste, na verdade, atualiza seus desejos infantis reprimidos — ou seja, matar o pai e ficar com sua mulher." Confrontado com sua repressão psicológica, Hamlet se dá conta de que "ele próprio não está em estado melhor do que o pecador que ele quer punir." Freud sugere que o aparente desgosto sexual de Hamlet, articulado na cena onde ele diz para Ofélia ir a um "convento de freiras" tem consonância com essa interpretação.

Sob os parâmetros de Freud, ao contrário da crença de Goethe,[d] Hamlet era capaz de matar uma pessoa, como fez sem a menor parcela de culpa com Polônio (na imagem), mas não era capaz de matar seu tio porque esse lhe remetia a seus impulsos infantis. (Artista: Delacroix).


Enquanto o príncipe não mata seu tio e não vinga a morte do pai, ele conduz vários outros personagens à morte. Um deles, o conselheiro Polônio, é assassinado pela espada de Hamlet, que não demonstra qualquer culpa no ato: "Adeus, mísero tolo, intruso e temerário! Tomei-te por alguém mais alto; aceita a sorte/ Bem vês que há algum perigo em ser intrometido." Nessa ocasião, há a interpretação de que Polônio, por ser um dos personagens de figura paterna na peça, poderia remeter Hamlet a seu próprio pai, mas isso não ocorre. É por meio desse exemplo, do assassinato de Polônio, que Freud discorda de Goethe — defensor da tese de que a hesitação do príncipe se deve sobretudo por causa de sua inclinação à racionalização —, mostrando-lhe que Hamlet é capaz de matar alguém, exceto seu tio, pelo motivo do completo de Édipo. Talvez a proximidade entre a ação de Cláudio e o desejo de Hamlet seja o fator que impede este de matar aquele. Concluindo, Freud crê que a hesitação de Hamlet em realizar a tarefa da qual foi incumbido se deve à natureza da mesma tarefa, isto é, ele precisaria vingar o pai matando seu assassino mas, infelizmente, esse assassino (o tio Cláudio) lhe reflete seus impulsos infantis e isso faz com que Hamlet não se vingue. Desta forma, os fatores que impedem o assassinato de Cláudio por Hamlet seria sua identificação com o tio e o medo de praticar uma ação injusta e imoral com a figura paterna que este lhe representa. Posteriormente, o ator John Barrymore introduziu essas explicações freudianas em sua marcante produção de 1922 em Nova Iorque, que se prolongou por 101 noites.

Em 1940, Ernest Jones — psicanalista e biógrafo de Freud — desenvolveu as idéias freudianas introduzindo uma série de ensaios que culminaram em seu livro Hamlet and Oedipus (1949). Influenciado pelas abordagens psicanalistas de Jones, inúmeras produções têm retratado a "cena do closet", quando Hamlet confronta sua mãe na câmara dela, em uma função sexual. Sob essa leitura, Hamlet está desgostoso por sua relação incestuosa com Cláudio enquanto simultaneamente está temeroso de matá-lo, e isso fica claro quando ele conduz sua mãe para a cama, consolando-a. A loucura de Ofélia após a morte do pai também pode ser lida através de lentes freudianas como uma reação à morte de alguém que esperava seu amor, o pai dela. Ela está tão saturada de ter seu amor não-cumprido por ele que terminou de forma abrupta que acaba se entregando à insanidade. Em 1937, Laurence Olivier realizou Hamlet no Old Vic sob as perspectivas de Jones.

Na década de 1950, as teorias estruturalistas de Lacan sobre Hamlet foram apresentadas pela primeira vez em uma série de seminários dados em Paris e logo depois publicadas em O Desejo e a Interpretação do Desejo em Hamlet. Lacan estipula que a psique humana é determinada por estruturas de linguagem e que, consecutivamente, as estruturas lingüísticas de Hamlet lançam luz sobre a ânsia humana. O ponto de partida de Lacan foram as teorias do complexo de Édipo de Freud, e também o tema central de luto que é exercido pelo príncipe Hamlet. Na análise de Lacan, Hamlet, inconscientemente, assume o papel de falo — a causa de sua inércia — e está cada vez mais distanciado da realidade por conta do "luto, da fantasia, do narcisismo e da psicose", que criaram buracos (ou "faltas") nos aspectos reais, imaginários e simbólicas de sua psique. As teorias de Lacan influenciaram a crítica literária de Hamlet porque utilizaram visões alternativas da peça e o uso da semântica para explorar o panorama psicológico da obra.

Ofélia distraída com sua dor. Críticos feministas têm estudado o seu estado dentro da loucura. (Artista: Hughes, 1890)


Feminismo

Durante o século XX, críticos feministas abriram novas abordagens acerca das personagens Gertrudes e Ofélia. Os novos historiadores e críticos do materialismo cultural examinaram a peça segundo seus contextos históricos, tentando juntar a cultura original do meio ambiente da peça. Eles se focam para o papel social de gênero da Inglaterra na idade moderna, apontando para a trindade comum da empregada, da esposa ou da viúva, com as prostitutas sozinhas fora do estereótipo. Dentro dessa análise, a essência de Hamlet é no enredo central de que Hamlet não aceita o novo casamento da mãe e a vê como uma prostituta por causa de sua incapacidade de manter-se fiel ao Rei Hamlet, seu falecido marido. Em consequência, segundo os feministas, Hamlet passa a perder sua fé diante de todas as mulheres, tratando Ofélia como se ela fosse desonesta feito uma prostituta. De acordo com certos críticos, Ofélia pode ser honesta e justa, contudo; no entanto, é praticamente impossível associar essas duas características, uma vez que "justiça" é um traço da aparência, do exterior, enquanto que a "honestidade" é um traço interior de cada sujeito.

O ensaio Mãe de Hamlet (1957), de Carolyn Heilbrun, defende Gertrudes, argumentando que o texto da peça nunca afirmou que a rainha soubesse do envenenamento do Rei Hamlet por parte de Cláudio. Esta análise tem sido defendida por muitos outros críticos, principalmente os feministas. Heilbrun diz que os homens, há séculos, têm seguido a visão do príncipe a respeito de sua mãe, ao invés de entenderem os motivos dados pela própria rainha. Desse modo, não há evidências de que Gertrudes praticou adultério: ela meramente teve que se adaptar às circunstâncias diante da morte de seu esposo para o bem de todo o reino.

Ofélia, por sua vez, tem sido defendida por críticos de todos os tipos, notavelmente por mulheres que, além de críticas teatrais e literárias, são feministas. Sob esse ângulo, a personagem é cercada de homens poderosos que possuem algum significado em sua própria vida (seu pai, seu irmão e Hamlet), mas todos os três desaparecem (Polônio morre, Laertes viaja, Hamlet abandona-a), fazendo com que algumas teorias convencionais digam que, sem esses três homens importantes para tomar decisões em seu lugar, Ofélia dirigi-se gradativamente à loucura. Os críticos feministas apontam que ela ficou louca e sentiu-se culpada porque, quando Hamlet assassinou seu pai, ele cumpriu o desejo sexual dela de, tirando Polônio do caminho, poderem ficar juntos. Alguns críticos consideram que Ofélia tornou-se - inexata e inadequadamente - o símbolo da mulher histérica e distraída na cultura moderna.

Influência
Hamlet é uma das obras mais citadas da literatura inglesa, e é frequentemente incluída na lista de grandes trabalhos literários. Como tal, tem influenciado a escrita de diversos autores através dos séculos. O acadêmico Laurie Osborne identifica a direta influência de Hamlet em inúmeras narrativas modernas, e as divide em quatro principais categorias: contabilidade fictícia da composição da peça, adaptação do enredo para leitores infantis, ampliação ou diminuição de algumas personagens da peça, e narrações destacando atuações da peça.

Escultura do Príncipe Hamlet segurando uma caveira, na Inglaterra: ao longo dos séculos, várias obras literárias foram influenciadas pela peça shakesperiana.


Tom Jones, de Henry Fielding, publicado em 1749, descreve uma visita feita por Tom Jones e Mr. Partridge a Hamlet, com similaridades com o recurso "teatro no teatro". Em contraste, o bildungsroman Wilhelm Meisters Lehrjahre de Goethe, escrito entre 1776 e 1796, não só tem um núcleo semelhante ao de Hamlet como também cria um paralelo entre o Fantasma e o pai morto do personagem Wilhelm Meister. Na década de 1850, em Pierre: or, The Ambiguities, Herman Melville foca-se em Hamlet como um personagem de longo desenvolvimento como escritor. Dez anos depois, o Great Expectations de Dickens contém muitos elementos parecidos com Hamlet: ele é impulsionado por vingança através de ações motivadas, e também possui personagens-fantasmas, além de focar na culpa do herói. O acadêmico Alexander Welsh nota que Great Expectations é uma "novela autobiográfica" e "antecipa leituras psicanalíticas de Hamlet em si."

Machado de Assis, um grande admirador de Shakespeare,[e] utilizou a tragédia hamletiana em inúmeros escritos de sua autoria: mais popularmente, no conto A Cartomante há a frase "Há mais coisas entre o céu a terra do que supõe nossa vã filosofia" logo na primeira linha, que conduziu a história através desse discurso. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o primeiro fantástico e realista do Brasil e, consecutivamente, revolucionário, o personagem-narrador cita o príncipe Hamlet para falar de sua morte no capítulo primeiro: "Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei. E foi assim que cheguei à cláusula dos meus dias; foi assim que me encaminhei para o undiscovered country de Hamlet, sem as ânsias nem as dúvidas do moço príncipe, mas pausado o trôpego, como quem se retira tarde do espetáculo."

Na década de 1920, James Joyce coordenou "uma versão mais otimista" de Hamlet — despojada de obsessão e vingança — em Ulysses, embora o paralelo principal é com a Odisséia de Homero. Na década de 1990, duas romancistas mulheres foram explicitamente influenciadas por Hamlet. Em Wise Children, de Angela Carter, Ser ou não ser é retrabalhado como uma música e uma dança rotineira, e, em The Black Prince, de Iris Murdoch, há temas como o do complexo de Édipo e do assassinato, entrelaçados com Hamlet.

História das encenações

Thomas Betterton como Hamlet durante a Restauração (Artista: desconhecido)


De Shakespeare a Restauração
Como Richard Burbage era o actor das tragédias do Lord Chamberlain's Men, com uma capacidade de memória muito grande e uma veia trágica, acredita-se que Shakespeare escreveu o papel de Hamler para ele. A julgar pelo número de reimpressões, Hamlet aparece como a quarta peça mais popular de Shakespeare durante seu tempo de vida – somente Henrique VI Parte 1, Ricardo III e Péricles o passaram. Shakespeare não providenciou nenhuma indicação de quando sua peça foi encenada; contudo, como os atores isabelinos encenavam no Globe com vestimentas contemporâneas no mínimo de aparelhagem, isso não teria afetado as encenações.

São escassas as evidências específicas sobre as primeiras encenações da peça. No entanto, o que se sabe é que a tripulação do barco Red Dragon, ancorado em Serra Leoa, executou Hamlet em setembro de 1607; sabe-se também que a peça excursionou pela Alemanha depois de cinco anos da morte de Shakespeare; e que, por último, foi encenada antes de Jaime I em 1619 e Charles I em 1637. Alguns editores, como George Hibbard, argumentam que, uma vez que a literatura contemporânea contém muitas alusões e referências a Hamlet (somente Falstaff é mencionado mais, em Shakespeare) a obra foi realizada com uma frequência que falta no registro histórico.

Todos os teatros ingleses foram fechados pelo governo puritano durante o Interregno Inglês. Mesmo durante esse tempo, contudo, atores conhecidos como drolls realizaram peças ilegalmente, incluindo uma chamada Os Coveiros, baseada no Ato 5, Cena 1 de Hamlet.

Restauração e século XVIII
A peça foi reaproveitada na Restauração. Quando chegou a pré-guerra civil inglesa e as peças foram divididas entre as duas empresas recém-criadas para ser definido o teatro com patente, Hamlet foi o único favorito shakesperiano que a companhia teatral Duke's Company, de William Davenant, garantiu.

Sarah Siddons talvez tenha sido a primeira mulher a interpretar Hamlet. (Artista: Thomas Gainsborough)


Por conta disso, Hamlet tornou-se a primeira das peças de Shakespeare a serem apresentadas com planícies pintadas e móveis com um genérico cenário atrás do proscênio no Teatro Lincoln's Inn Fields. Esta nova convenção de palco ressaltou a freqüência com que Shakespeare desloca o local dramático, encorajando as recorrentes críticas sobre sua violação do princípio neoclássico de manter a unidade do espaço. Davenant lançou Thomas Betterton no papel epinômino, e ele continuou a encenar Dane até ele ter 74 anos. David Garrick produziu uma versão que adaptou a elevação de Shakespeare, declarando: "eu não gostaria de deixar o palco até que livrar a notável peça de toda a insignificância do quinto ato. Eu tive que retirar a cena dos coveiros, a aparição de Orisco e a competição de esgrima entre Laertes e Hamlet". O primeiro ator a interpretar Hamlet na América do Norte foi Lewis Hallam. Jr., numa produção da Companhia Americana de 1759, na Filadélfia.

A estréia de John Philip Kemble no Teatro Drury Lane foi como Hamlet, em 1783. Sua performance era para ser dita por mais 20 minutos do que qualquer outra, e suas prolongadas pausas provocaram a sugestão de que "a música de ser tocada entre as palavras." Sarah Siddons foi a primeira atriz conhecida a encenar Hamlet, uma vez que muitas mulheres interpretavam-no em papéis com roupas masculinas em 1748, Alexander Sumarokov escreveu uma adaptação russa que focava no Príncipe Hamlet como o resumo de uma oposição à tirania de Cláudio - um tratamento que ocorreu novamente em outras versões do Ocidente europeu na entrada do século XX. Nos anos que se seguiram a Independência americana, Thomas Abthorpe Cooper, o jovem líder da tragédia nacional, encenou Hamlet no meio de outras peças na Filadélfia e em Nova Iorque. Embora criticado por "memorização inadequada de algumas linhas", ele tornou-se uma celebridade nacional.

Hamlet no século XIX
Por volta de 1810 a 1840, as mais famosas encenações shakesperianas nos Estados Unidos foram realizadas em viagens teatrais lideradas por atores londrinos, incluindo Junius Brutus Booth. Booth merece destaque não só por ter continuado sua carreira nos EUA, mas porque também produziu dois dos mais notórios atores da nação: John Wilkes Booth (que mais tarde assassinaria Abraham Lincoln) e um dos mais famosos Hamlet, Edwin Booth. O Hamlet de Edwin Booth é descrito como "igual ao obscuro, louco, sonhador, misterioso herói de um poema... [agiu] de uma maneira idealizadora, como se afastasse do possível plano da vida real." Booth encenou Hamlet por 100 noites entre 1864/5, inaugurando a era de longas apresentações shakesperianas nos Estados Unidos.

Sir Henry Irving como Hamlet, numa ilustração de 1893 presente na revista The Idler (Artista: Desconhecido).


No Reino Unido, atores-administradores da Era vitoriana (incluindo Kean, Macready, e Henry Irving) encenaram Shakespeare de formas variadas, elaborando cenários e costumes. A tendência dos atores destacarem a importância de seu próprio personagem (especial e principalmente de Hamlet) ainda não encontrava aprovações dos críticos. George Bernard Shaw, louvando a performance de um outro ator, deu uma "bofetada" na de Irving (que vinha fazendo encenações no Teatro Lyceum): "A história da peça foi perfeitamente compreensível, e levou bastante a atenção da platéia sobre os momentos de aparição da personagem principal. E o que o Lyceum anda a encenar?"

Em Londres, Edmund Kean foi o primeiro Hamlet a abandonar os enfeites reais usualmente associados ao papel em favor de uma simples fantasia, e ele disse ter se surpreendido com a audiência apesar de seu Hamlet sério e introspectivo. Em um contraponto gritante com as primeiras opulências, a produção sobre o texto do Q1, por William Poel em 1881, foi uma tentativa de reconstruir a austeridade dos teatros isabelinos, onde seu cenário era apenas um conjunto de cortinas vermelhas. Sarah Bernhardt encenou o príncipe em sua popular produção londrina de 1899. Em contraste com a visão "afeminada" do personagem central que geralmente acompanhava um elenco feminino, ela descreveu seu Hamlet como "firme e melancólico, mas nem por isso pensativo... [ele] pensa antes de agir, uma característica que indica sua grande força e seu grande poder espiritual."

Em França, Charles Kemble iniciou um trabalho que sustentaria uma mania por Shakespeare, e liderou membros do Movimento Romântico - como Victor Hugo e Alexandre Dumas - a assistir sua performance de Hamlet em Paris em 1827, onde o destaque foi para a Ofélia de Harriet Smithson. Na Alemanha, Hamlet tinha se tornado tão popular em meados do século XIX que Ferdinand Freiligrath declarou certa vez: "A Alemanha é Hamlet". A partir de 1850, o teatro persiano produziu Hamlet dentro de suas tradição indianas, com dezenas de músicas adicionadas dentre a peça, e com encenações folclóricas.

Hamlet no século XX e no século XXI
Além de muitas trupes ocidentais visitarem o Japão no século XIX, a primeira encenação profissional de Hamlet em território japonês partiu de Otojiro Kawakami, em 1903. Shoyo Tsubouchi traduziu Hamlet e produziu uma performance em 1911 que misturou Shingeki ("novo drama") com estilos típicos do Kabuki. A produção de Hamlet (1948) no Brasil, no Teatro Fênix, encenada e atuada pelo renomado Sérgio Cardoso, talvez tenha sido a primeira encenação da peça em território brasileiro. A produção tornou-se popular e conquistou crítica e público. O impacto dessa produção foi a interpretação inovadora de Sérgio Cardoso, citada como atenciosa na construção da personagem, num tempo em que os atores brasileiros acreditavam no talento nato. Cardoso trabalharia novamente em Hamlet oito anos depois, onde Décio de Almeida Prado diria: "[...] todos estes anos não se passaram em vão".

O ator americano Edwin Booth como Hamlet, 1870, no monólogo Ser, ou não ser, eis a questão.


Hamlet muitas vezes foi e ainda continua sendo encenada com tons políticos contemporâneos: a produção de 1926, do alemão Leopold Jessner, no Teatro Berlin Staatstheater, retratou a corte do personagem Cláudio como uma paródia da corte de Guilherme II. Na Polônia, o número de produções de Hamlet obteve uma tendência a dar destaque aos temas políticos da peça, desde que esses temas políticos - crimes suspeitos, golpes, vigilância - pudessem ser utilizados para comentar uma situação da época. Da mesma forma, alguns diretores da República Checa têm usado a peça nos momentos de ocupação: uma produção de 1941 do Teatro Vinohrady, segundo alguns autores, "destacou, com a devida cautela, a situação de um intelectual indefeso tentando sobreviver em um ambiente sem piedade". Na China, algumas performances de Hamlet tiveram importância política: The Usurper of State Power (1916), de Gu Wuwei, uma amálgama de Hamlet e Macbeth, foi uma crítica a determinados militares que desejavam derrubar a república do país. No rescaldo do colapso dos protestos de 1989 na Praça da Paz Celestial, Lin Zhaohua encenou um Hamlet em 1990 onde o príncipe era um indivíduo ordinário torturado por uma perda de sentido. Nesta produção, os atores encenaram Hamlet, Cláudio e Polônio mudando os papéis nos momentos cruciais da performance, incluindo o momento da morte de Cláudio, ponto onde o ator associado a Hamlet havia caído no chão.

Notáveis encenações em Londres e em Nova Iorque incluem a produção de Barrymore de 1925: ela influenciou as performances de John Gielgud e Laurence Olivier. Gielgud atuou no papel principal durante um bom tempo: sua produção de 1936 em Nova Iorque levou-o a realizar 136 performances, fazendo com que fosse considerado o melhor intérprete do papel desde Barrymore. A produção de 1937 no Old Vic Theatre, com Olivier no elenco, foi aclamada pelo público mas não pelos críticos: um crítico teatral do The Sunday Times escreveu certa vez: "Mr. Olivier não fala poesia de forma ruim. Ele não fala nada sobre ela." Em 1963, foi a vez de Olivier dirigir Hamlet, e trabalhou com Peter O'Toole (que era o príncipe).

Com efeito, Hamlet é a peça mais produzida de Shakespeare: somente em Nova Iorque, ela possui sessenta e quatro produções encenadas na Broadway e um número incontável na Off-Broadway. No século XIX, esses números aumentam cada vez mais. No Brasil, uma recente produção de Wagner Moura — que já vinha fazendo sucesso com o personagem Capitão Nascimento em Tropa de Elite —, dirigida por Aderbal Freire Filho, destacou o lado cômico da peça e realizou uma versão menos poética e mais apropriada para a fala do atores em cena.

Atriz Sarah Bernhardt como Hamlet, com a caveira de Yorick.


Desempenhos no cinema

A primeira adaptação de Hamlet que fez sucesso na tela foi o filme produzido em 1900 de cinco minutos de Sarah Bernhardt, que apresentava a cena da competição. A música do filme e as falas foram gravadas em gravações fonográficas para serem encenadas ao longo das cenas.Versões mudas foram realizadas em 1907, 1908, 1910, 1913 e em 1917. Em 1920, Asta Nielsen encenou Hamlet como uma mulher que gasta sua vida disfarçada de homem. O film noir Hamlet (1948), de Laurence Olivier, ganhou o Oscar de melhor fotografia e de melhor ator. Gamlet (Russo: Гамлет), de 1964, é um filme russo, baseado na tradução de Boris Pasternak e estrelando Innokenty Smoktunovsky no papel do príncipe. Por sua performance, Smoktunovsky ganhou um elogio de Laurence Olivier. John Gielgud e Kenneth Branagh, dois experts de Shakespeare, consideram esse trabalho como a rendição definitiva do conto trágico de Shakespeare. Gielgud dirigiu Richard Burton no Lunt-Fontanne Theater em 1964-5 e essa performance acabou inspirando uma obra cinematográfica. Tony Richardson dirigiu Marianne Faithfull como Ofélia em sua versão de 1969.

Posteriormente, outros atores como Kenneth Branagh e Mel Gibson também dirigiram ou atuaram adaptações cinematográficas de Hamlet. Branagh adaptou, dirigiu e estrelou uma extensa versão de 1996, que continha todas as palavras da peça shakesperiana, combinando o material dos textos do F1 e do Q2, e o resultado foi quatro horas de filme. Em 2000, Michael Almereyda adaptou a história para os tempos contemporâneos, onde ela se passa em Manhattan, e Ethan Hawke encena um Hamlet que estuda cinema.

Luís I de Portugal foi o primeiro a publicar em conjunto sistematizado algumas obras de Shakespeare para o português, inclusive Hamlet.


Edições

A língua portuguesa conta com uma ampla bibliografia de Hamlet. Mesmo nos dias atuais ainda se fazem traduções da tragédia shakesperiana, como é o caso de Hamlet (2003) em tradução do brasileiro Elvio Funck.[i] As versões mais antigas, contudo, são importantes para se verificar como as traduções de Shakespeare em português às vezes não seguem o texto-fonte e, adquirindo um estilo peculiar, substituem freqüentemente seus versos por prosa: isso ocorre com o primeiro conjunto de publicações de Shakespeare para o português, traduzidas por Luís I de Portugal que, além de assinar Hamlet (1877),[ii] também trabalhou em cima de O Mercador de Veneza (1879), Ricardo III (1880) e Otelo, o Mouro de Veneza (1885).

Recentemente, a tradição estabelecida por Luís I é aproveitada, desde 2001, na série Shakespeare para o século XXI, do Departamento de Estudos Anglo Americanos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que possui associação com a editora Campo das Letras, onde acadêmicos especializados traduzem as obras sob o parâmetro do registro em prosa.Antes da edição de Luís I, porém, a Fundação Biblioteca Nacional data uma versão em português de 1871, sob o título de Hamleto, principe da Dinamarca, tragedia em cinco actos, embora não informe o tradutor, deixando apenas o conhecimento de que foi impressa e lançada no Rio de Janeiro.

A partir das traduções do Rei e a do Rio, muitas outras se seguiram. De acordo com a Biblioteca Nacional de Portugal, existiu uma edição de 1887 com um estudo crítico da peça, assinada por José António de Freitas.[iii]

De fato, a tradução versificada dos versos dramáticos de Shakespeare encontram poucos adeptos em Portugal: certos pesquisadores encontram apenas dois títulos relevantes fora desse costume, como é o caso de Sonho d'uma noite de São João (1874), traduzida por Visconde António Feliciano de Castilho, e Júlio César (1925), por Luís Cardim.[183] Ainda na estratégia formal da prosa, o Brasil conta com tradutores de Shakespeare que são importantes nomes das letras nacionais, como Millôr Fernandes (que fez uma tradução em 1984),[vi] Geraldo Carneiro e Paulo Mendes Campos. Fora da estratégia prosaica, há alguns tradutores brasileiros que seguem os versos shakesperianos, como é o caso de Artur de Sales, Geir Campos e também Péricles Eugênio da Silva Ramos (sendo esse verbete baseado em sua tradução de 1976).



Lista de edições em português
Abaixo podemos encontrar uma lista de edições em língua portuguesa de Hamlet, realizada por tradutores de Portugal e do Brasil, abrangendo tanto trabalhos recentes como trabalhos antigos. A lista abaixo se baseia em dados da Biblioteca Nacional de Portugal e da Fundação Biblioteca Nacional. Se quiser analisar uma relação mais completa, pode se dirigir à página virtual dessas duas instituições.

Ramos, Péricles (trad.), Hamlet, ed. 1976. Abril S.A Cultural e Industrial, São Paulo.
Shakespeare, William, 1564-1616; Pato, Bulhão, 1829-1912, trad., Hamlet. Lisboa : Typ. da Academia Real das Sciências, 1879
SHAKESPEARE, W. Hamlet, tradução de Millôr Fernandes. São Paulo, Editora Peixoto Neto, 2004.
— (trad.), Hamlet, ed. 2007 Editora Universo dos Livros. ISBN 9788599187456
A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca/ Shakespeare; trad. e pref. José Blanc de Portugal, [Lisboa : Editorial Presença, 1967] ( Porto : -- Tip. Nunes)
Shakespeare, William, 1564-1616; Freitas, José António de, 1849-1931, trad., Hamlet, Lisboa : J. Rodrigues, 1912
i. ^ Funck, Élvio Antônio (trad.), Hamlet, São Leopoldo, RS : Ed. UNISINOS, 2003. ISBN 8574311642

ii. ^ Luís I de Portugal (trad.), Hamlet, Drama em cinco actos, Lisboa: Imprensa Nacional, 1877

iii. ^ Shakespeare, William, 1564-1616; Freitas, José António de, 1849-1931, trad., Lisboa : J. Rodrigues, 1912

vi. ^ Fernandes, Millôr (trad.), Hamlet, 1984. Pocket Editora. ISBN 8525406112

Referências

Comentários
a. Quarto: é um termo (usado na idade moderna) na impressão, que se refere ao tamanho de um livro, geralmente impresso sobre duas faces de grandes folhas de papel, medindo 23 cm por 30 cm, aproximadamente o tamanho da maioria das revistas de hoje em dia.

b. Repare como em Q1 está escrito To be, or not to be, I there's the point, enquanto que no F1 podemos encontrar: To be, or not to be: That's the question. Isso apenas comprova como o texto do Q1 não é inteiramente parecido com o do F1 e nem com o dos outros.

c. Tomando em consideração que Sófocles é de uma época muito anterior da de Shakespeare, Freud pretendia representar suas concepções acerca do Complexo de Édipo dando esse nome em homenagem à peça deste dramaturgo grego antigo, como meio de registrar a consciência mais antiga da humanidade a respeito do complexo. Fora isso, contudo, é a peça Hamlet, que só surgiu séculos depois da Édipo Rei, que se encaixa melhor nas idéias freudianas. [100] De fato, seria como se Shakespeare registrasse uma consciência que evolui diante do complexo, se comparada à época de Sófocles.

d. Ao contrário de Freud, Goethe acreditava que o príncipe era um ser extremamente frágil, incapaz de executar a tarefa que lhe foi dada.

e. Machado disse certa vez: "Um dia, quando não houver mais Grã-Bretanha, quando não houver mais os Estados Unidos, quando pois, não existir mais a língua inglesa, ainda sim, haverá Shakespeare. Falaremos Shakespeare." Também podemos encontrar paralelos entre Machado e Shakespeare em Dom Casmurro, onde o personagem principal, além de se referir a Shakespeare e ir assistir em um teatro carioca uma de suas peças, é considerado por alguns críticos de literatura como "uma versão tropical de Otelo."


Bibliografia
Alexander, Peter. 1964. Alexander's Introductions to Shakespeare. London: Collins.
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